domingo, 29 de novembro de 2015

Daqui de cima

Enquanto por mim fico aqui em cima e ouço os piores barulhos desde o início da noite. Os motores que vibram e os pneus que freiam demais, por tempo demais, e as pancadas das batidas fortes, das batidas perigosas por ali. Por aqui, bem aqui embaixo. Eu continuo aqui em cima.
E logo em seguida ouvimos as sirenes. Me preparo para ouvir algum grito, e nada. A música fica alta, cada fim de semana mais alta, ou eu a cada fim de semana menos disposta a ouvir algum barulho. Por isso aqui em cima. Quanto mais distante, algo melhor.
E às vezes os gritos de quem briga e se manda embora. Ouvi-os também. Não junto à batida e às sirenes, mas à música. Acho que depois do susto prefere que se fique o silêncio. Depois da balbúrdia planejada prefere-se mais balbúrdia. E gritos e raiva.
Os carros freiam de novo. Os motores também gritam e torcem meus ouvidos aqui. Quanto mais distante, melhor. Fico aqui em cima até que o dia amanheça e venha outro, e venha outros. Por mim eu não desço mais. Por mim eu não pulo mais - desisti. Por mim eu escuto os freios longos e as pancadas de quem se espanca. Por mim eu escuto as sirenes e finjo que saber disso tudo é existir de alguma forma. E ouço os gritos, a música ruim, a noite longa que parece começar antes de o sol descer completamente.
Eu aqui em cima. E não há por que ver nem ouvir mais nada de perto. Me deixo ficar. Não vou mais descer, nem pular. Desisti.

domingo, 22 de novembro de 2015

Tudo o que passamos a ser

Isso, porque no início era exatamente o oposto disso tudo aqui. Você era um completo oposto disso tudo aqui. Ou éramos, os dois. Com essas máscaras por cima e essas certezas de que o que devíamos fazer era ficar junto, porque sim, porque vamos, quando fizemos tudo dar certo. E quando cedemos demais. Ouvimos demais. Abraçamos os projetos e dizemos que, claro, eu acredito que vai dar certo, estamos juntos. Vamos seguir em frente.

A gente seguiu. E foi em frente demais. Deixamos passar bastante tempo, deixamos passar bastante o tempo. Tudo passou e ou as máscaras caíram, ou definitivamente nos tornamos dois completos diferentes. Diferentes do antes, diferentes um do outro no agora. E depois de construir uma história, é impossível voltar atrás, por mais que tanto já tenha deixado de fazer sentido. Ninguém volta atrás. Se as coisas mudaram, se nós mudamos, se éramos um outro que nem reconheceríamos mais caso um dia acordemos igual seis anos atrás, não interessa. A gente não volta atrás. A gente insiste e esmurra a mesa. Foi o jeito mais inteligente que encontramos.

E enquanto a gente se pergunta se éramos um outro e se mudamos tanto, ou se estávamos lá no início fingindo ser outro - sem saber - para conseguir o que queríamos - sem ter tanta certeza assim. Enquanto não sabemos se foi certo ceder tanto, brigar tão pouco, fazer-se tão feliz, para agora ser tudo assim, ao contrário, se irritando e irritando um ao outro porque queremos um outro diferente. E nem assumimos isso. Detrás de um "sou exatamente assim" e de uma fingida segurança de que é isso que tu tem que aguentar se quiser que fiquemos juntos, a gente descobre que finge demais, muda demais, assume de menos os riscos, e deixa o tempo passar até que fiquemos completamente intolerantes, até que fiquemos desejando alguém completamente igual à nós, aos nossos desejos, aos nossos ideais. E, tomando consciência disso, tendo toda a vergonha da consciência, a certeza da impossibilidade, a gente mesmo faz o silêncio, a fuga, e dorme de costas um pro outro quando chegar de noite.

Não vamos mudar nada. Não vamos assumir coisa alguma. Vamos ceder um pouco mais agora. E acreditar. Porque existe a certeza de que estar junto é o que se quer, isso fazendo todo ou nenhum sentido. Já faz tempo que é assim. Já faz todo o tempo que é exatamente assim.

quinta-feira, 19 de novembro de 2015

Na fila do açaí

Pessoa 01:
Moço, um açaí, por favor. De quanto? Tem de dois, de dois e cinquenta, de três, de três e cinquenta, de quatro, de quatro e cin... De sete reais.  Leite condensado? Sim, leite condensado. Só açaí? Não, açaí e cupuaçu. [Soca açaí e cupuaçu]. No meio? Leite condensado. [Soca leite condensado.] Quê mais? Farinha láctea. Granola. Castanha. Essa bolinha de chocolate. Granulado. Cobertura de morango. Mais leite condensado. [Soca leite condensado.] Leite ninho, também. [Agora soca mais açaí.]. E em cima? Quero... leite condensado. Amendoim. Castanha. Nesquik (?). Negresco. Jujuba, tem? Jujuba. Cobertura de chocolate. Esse que tem escrito "qualquer coisa". E uma colher de beijinho de coco do pote de leite moça. Isso, tá bom. Obrigada. 


Pessoa 02: 
Um açaí, por favor. De quanto?, tem de dois, de dois e cinq. De quatro e cinquenta. Só açaí. Sem cupuaçu. Com leite condensado antes. Agora açaí. Agora mais leite condensado no meio. No meio também vou querer cobertura de chocolate e de morango e de doce de leite. Coloca leite em pó e nescau e nesquik de morango (?!). Agora a granola e o granulado e a castanha. Pronto. Mais açaí. Cupuaçu também. Só um pouco. Agora mais leite condensado por cima, por favor. Tem amendoim? Amendoim. Castanha. Mais granulado, mas esse colorido agora. É. Coco ralado. Esse palitinho do ioiô mix. E um pouco mais de doce de leite por cima, por favor. Brigada. 


Pessoa 03: 
Um açaí. De . De sete reais. Leite condensado antes. Mais. Isso. Mais um pouquinho de leite condensado. Tem cupuaçu? Pronto, faz assim. Coloca uma colher de cupuaçu, isso, agora uma de açaí, isso, agora duas de cupuaçu, mais uma de açaí. Ótimo. 
E no meio? 
No meio você coloca mais leite condensado. Coloca leite ninho. Coloca farinha láctea. Granola. Amendoim. Farinha láctea de novo porque mistura por baixo e por cima com a granola e o amendoim e fica bom e faz toda a diferença. Tem granulado? Granulado. Aquelas bolinhas preta e branca que não têm gosto de nada e só de açúcar. Pronto. No meio tá bom. Cobertura de morango. E cobertura de doce de leite.
Mais açaí? 
Mais açaí e mais cupuaçu. Mas você põe o açaí embaixo. 
Embaixo não dá, já botei o leite condensado e o açaí e o cupuaçu e o recheio de 
Não, digo agora em cima do recheio. Açaí embaixo. Por cima cupuaçu. Por cima açaí. Pronto. 
Cobertura?
Quero leite condensado. Chocolate. Nesquik. Negresco. Leite em pó. Farinha láctea. Amendoim. Agora salpica um pouquinho de granola. Mais leite condensado. Cobertura de chocolate. Coco ralado. Leite em pó de novo. Esse beijinho da Leite Moça - uma colherzinha só. E uma colherada de doce de leite!!! 



Onde é que vocês vão parar?

terça-feira, 3 de novembro de 2015

No meio dos erros

Foi enquanto eu almoçava sozinha no meio de um restaurante vazio, já pelas duas da tarde. No meio de um dia absolutamente ruim, em que os acontecimentos iam de maus a péssimos, e eu ficava duplamente cansada a cada instante. Um dia que poderia não se repetir, mas que nenhuma tragédia, realmente, acontecia. Eu só me dava conta da tragédia em que eu tinha enfiado minha vida: no meio do nada, parece. E não havia nada o que fazer quanto a isso - no momento do restaurante.

E enquanto eu via o que tudo aquilo podia significar. Se a cada semana tem ficado mais difícil ter alguém para almoçar em companhia, como que deverá ser dentro de alguns anos. Como que deverá ser quando eu ficar velha. E como vou me sentir depois de envelhecer, se estiver no meio de um restaurante vazio, em plena terça-feira, levando um dia ruim e uma vida que não é uma tragédia, mas é, por isso mesmo, um plano que saiu completamente errado. Eu com a sensação e a convicção de estar assim, completamente sozinha.

E me pergunto até quando dá pra aguentar tendo consciência disso tão claramente. Escrevi pra ele: estou tendo um dia péssimo. "Normal demais", ele me respondeu me deixando pior, mas na verdade me fez rir na hora. A intenção era essa - funcionou. Mas o sushi também veio ruim, agora lembro.

E assim mesmo tive de pensar se era por isso que os dias eram ruins: porque andamos tão sozinhos. Porque somos tão sozinhos e não temos consciência disso; ou porque estamos sempre tão sozinhos e temos absoluta compreensão do que está acontecendo. Eu tenho absoluta compreensão do que está acontecendo - pode perguntar à minha terapeuta. Tô prestes a receber um parabéns (nunca uma alta terapêutica) por isso. E perguntei se não era por isso somente que nos metíamos em relacionamentos errados, em amizades que não nos trazem conforto, em telas de celulares que nos dizem, a todo instante, que ninguém está sozinho, e que todos são felizes em excesso.

Percebo que nunca acreditei nos felizes em excesso. Que não acredito mais em pessoa nenhuma, nem em mim, que me traio todo dia - desde o dia em que prometi a mim mesma dizer não aos outros, eu nunca ouvi um não sair de minha boca. Tudo pra evitar a solidão. É só em busca disso que a gente vai, corre desesperadamente, compartilha os sonhos como vitórias, as fotografias dos feitos heroicos, ouve os aplausos, e assim continuamos vidrados nas telas, nos olhos, nos abraços vazios de todo mundo. De quase todo mundo.

Fiquei pensando se ia aguentar aquilo ali por muito tempo. A consciência disso tudo, da solidão que reina sobre nós enquanto a gente pensa que reinamos sobre nós mesmos - e que temos alguma companhia na vida. Não temos. Não me restou mais otimismo para acreditar que sim. E fiquei me perguntando até quando consigo aguentar essa certeza cotidiana. E, no meio de um dia ruim, no restaurante vazio, com uma comida que não descia bem desde a primeira garfada (em hashi), pedi um café com uma certa segurança de que, sim, eu devo aguentar ainda mais. Contanto que eu não lute tanto contra a solidão dos dias ruins, dos planos errados, dos restaurantes vazios em que a comida não é tão boa. É tudo tão "normal demais", na verdade, no riso só.

Dá pra seguir, assim, pensei no último gole. Dá pra seguir. E fui terminar o dia que acabava comigo.

Desassossegos e alguns sossegos pelo sul

1. Sim, era pra eu ter trazido mais roupa de frio.

2. Era pra eu ter trazido mais roupa pra chuva.

3. Não acreditei que a chuva não pararia nem por cinco minutos.

4. Não parou.

5. Era pra eu ter trazido luvas.

6. Doze horas de viagem de ônibus passam rápido.

7. Quatro horas de viagem de ônibus duram uma eternidade.

8. Oito horas de viagem de ônibus foi razoável, não tivesse terminado com trovoadas.

9. Não acredito que vou ter de viajar de avião pra poder voltar pra casa.

10. Faz de conta que não é de avião que vou voltar pra casa.

11. Quando é que vou voltar pra casa? Tá frio.

12. Diz pro pessoal que Norte e Nordeste são bem diferentes.

13. Não sou do Norte, não, senhora.

14. E Montevidéu tem aroma canabinense. Achei agradável.

15. Na capital uruguaia eu substituiria a noção de entardecer por anoitecer, simplesmente. Porque é mais bonito. Porque significa mais assim.

16. Não é o sol indo, mas a escuridão chegando que torna tudo mais bonito.

17. Também não sinto meus pés - o que favorece a persistência dos calos.

18. Não é possível que se tenha de vestir tanta roupa pra ir até a esquina. Até a esquina.

19. E ainda assim as pessoas (?) gostam (?) tanto do frio (?).

20. Não dá pra ser feliz no frio.

21. Mas dá pra tomar cerveja no frio e sentir alguma felicidade.

22. Eu não sou do Norte.

23. Mas queria ser. Lá tem tacacá. Sorvete Cairú. Você já tomou sorvete da Cairú?

24. Penso no calor e quero voltar pra minha casa - que fica no Nordeste.

25. A primeira vez num lugar nem sempre surpreende, Porto Alegre.

26. A segunda vez num lugar pode deixar tudo melhor, Montevidéu.

27. Eu repetiria a viagem inteira,

28. Incluindo a volta pra casa.

29. Que chegar de volta é tão bom quanto partir.