domingo, 29 de novembro de 2015

Daqui de cima

Enquanto por mim fico aqui em cima e ouço os piores barulhos desde o início da noite. Os motores que vibram e os pneus que freiam demais, por tempo demais, e as pancadas das batidas fortes, das batidas perigosas por ali. Por aqui, bem aqui embaixo. Eu continuo aqui em cima.
E logo em seguida ouvimos as sirenes. Me preparo para ouvir algum grito, e nada. A música fica alta, cada fim de semana mais alta, ou eu a cada fim de semana menos disposta a ouvir algum barulho. Por isso aqui em cima. Quanto mais distante, algo melhor.
E às vezes os gritos de quem briga e se manda embora. Ouvi-os também. Não junto à batida e às sirenes, mas à música. Acho que depois do susto prefere que se fique o silêncio. Depois da balbúrdia planejada prefere-se mais balbúrdia. E gritos e raiva.
Os carros freiam de novo. Os motores também gritam e torcem meus ouvidos aqui. Quanto mais distante, melhor. Fico aqui em cima até que o dia amanheça e venha outro, e venha outros. Por mim eu não desço mais. Por mim eu não pulo mais - desisti. Por mim eu escuto os freios longos e as pancadas de quem se espanca. Por mim eu escuto as sirenes e finjo que saber disso tudo é existir de alguma forma. E ouço os gritos, a música ruim, a noite longa que parece começar antes de o sol descer completamente.
Eu aqui em cima. E não há por que ver nem ouvir mais nada de perto. Me deixo ficar. Não vou mais descer, nem pular. Desisti.

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