domingo, 22 de novembro de 2015

Tudo o que passamos a ser

Isso, porque no início era exatamente o oposto disso tudo aqui. Você era um completo oposto disso tudo aqui. Ou éramos, os dois. Com essas máscaras por cima e essas certezas de que o que devíamos fazer era ficar junto, porque sim, porque vamos, quando fizemos tudo dar certo. E quando cedemos demais. Ouvimos demais. Abraçamos os projetos e dizemos que, claro, eu acredito que vai dar certo, estamos juntos. Vamos seguir em frente.

A gente seguiu. E foi em frente demais. Deixamos passar bastante tempo, deixamos passar bastante o tempo. Tudo passou e ou as máscaras caíram, ou definitivamente nos tornamos dois completos diferentes. Diferentes do antes, diferentes um do outro no agora. E depois de construir uma história, é impossível voltar atrás, por mais que tanto já tenha deixado de fazer sentido. Ninguém volta atrás. Se as coisas mudaram, se nós mudamos, se éramos um outro que nem reconheceríamos mais caso um dia acordemos igual seis anos atrás, não interessa. A gente não volta atrás. A gente insiste e esmurra a mesa. Foi o jeito mais inteligente que encontramos.

E enquanto a gente se pergunta se éramos um outro e se mudamos tanto, ou se estávamos lá no início fingindo ser outro - sem saber - para conseguir o que queríamos - sem ter tanta certeza assim. Enquanto não sabemos se foi certo ceder tanto, brigar tão pouco, fazer-se tão feliz, para agora ser tudo assim, ao contrário, se irritando e irritando um ao outro porque queremos um outro diferente. E nem assumimos isso. Detrás de um "sou exatamente assim" e de uma fingida segurança de que é isso que tu tem que aguentar se quiser que fiquemos juntos, a gente descobre que finge demais, muda demais, assume de menos os riscos, e deixa o tempo passar até que fiquemos completamente intolerantes, até que fiquemos desejando alguém completamente igual à nós, aos nossos desejos, aos nossos ideais. E, tomando consciência disso, tendo toda a vergonha da consciência, a certeza da impossibilidade, a gente mesmo faz o silêncio, a fuga, e dorme de costas um pro outro quando chegar de noite.

Não vamos mudar nada. Não vamos assumir coisa alguma. Vamos ceder um pouco mais agora. E acreditar. Porque existe a certeza de que estar junto é o que se quer, isso fazendo todo ou nenhum sentido. Já faz tempo que é assim. Já faz todo o tempo que é exatamente assim.

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