quarta-feira, 16 de dezembro de 2015

Avesso sem volta

Sim, mas foi porque eu achei e tive muita certeza de que aos vinte e cinco tudo já estaria tão bem encaminhado que não seria mais encaminhado mais. Seria algo como tudo certo e no lugar, caminho terminado, foi isso que achei. Foi isso que tive certeza. Ah, mas eu tive muita certeza disso. Eu sabia que já teria saído de casa, sem neuras, com os nervos no lugar, e também sem dívidas (nem com meus pais nem com o banco). E sabia que eu já estaria lá, no meu lugar, físico e psicológico, no mundo, no mundo inteiro, onde eu quisesse estar - mas sabendo que estaria aqui por perto mesmo. Só que eu continuo morando na casa da minha mãe com todas as neuras e dívidas e sem nervo nenhum no lugar. Ando cada dia pior.

Tive certeza de que já teria um emprego que não me permitiria nenhuma vida extraordinária, mas uma vida minha. E aí eu poderia almoçar no restaurante preferido da comida sem glúten três vezes por semana, por exemplo. E comprar aquela bolsa. Ou aqueles livros da Cosac Naify. Mas todo mês o banco me avisa que eu entrei no cheque especial, e a editora até fechou antes que eu pudesse comprar coleções inteiras de lá. (Os títulos que tenho ganhei, generosamente, de presente.)

Também tive certeza de que seria disciplinada o suficiente para não comer o que eu não devesse, mas sigo ingerindo toda a quantidade de gordura e lactose que eu consiga aguentar sem morrer - só passando mal todos os dias. E nessa minha infantilidade sempre penso que passar mal é ruim, mas eu aguento a irresponsabilidade.

Também, claro, sabia que não estaria mais na terapia. Eu seria bem resolvida, não-ansiosa, não-deprimida, também equilibrada e choraria menos, bem menos. Mas lá vou eu atravessando a década, atingindo quase uma década de psicoterapia em uma caminhada lenta e teimosa. Minha lua deve ser em Áries. Meu Sol também. Tem isso? O Sol da pessoa? Eu devo ter muita coisa em Áries, a lua, o sol, tudo.

Eu achava que aos vinte e cinco haveria a independência física e psicológica, financeira e emocional, e parece que à medida que o tempo passa eu só afundo mais, fazendo um caminho contrário como quem corre numa esteira. O que tenho por agora é um Sigaa 49% integralizado, uma viagem que era a dos meus sonhos mas também está sendo a das minhas dívidas, e uma desistência antecipada de acreditar nos sonhos de antes. Será que eles vão vir? Vejo os amigos casando e tendo filhos, e o máximo que consigo fazer agora é adotar um cachorro sem raça que acabou de nascer e ainda nem abriu os olhos - crendo eu que, daqui pra quando ele abra os olhos, eu tenha melhores condições de cuidar dele. O que não vai acontecer, porque isso é dentro de vinte dias.

Há quem diga que basta eu acreditar mais em mim (nunca acreditei) e menos, bem menos nos outros (eu só acredito nos outros). E alguém mais sincero que diga que basta eu parar de reclamar tanta asneira. Eu só sei que me virei completamente pelo avesso, e não encontro mais nem o final dessa coberta, pra começar a desvirar tudo de volta, e ir andando pra frente.

Vou comer algo gorduroso com lactose.

Um comentário:

Júlio Cézar disse...

tu reclama de tudo!!!11