quarta-feira, 2 de dezembro de 2015

Fotografias

Finalmente passo as fotos de tantos meses gravadas no celular, passo para o computador. Infelizmente, sou uma pessoa postergadora por natureza, principalmente quando o dever inclui lidar com máquinas, computadores, pen drives, cabos de qualquer ordem. Nasci séculos muito tarde; tenho dificuldades com isso tudo e pouca paciência.

Lá vão as centenas de fotos de um ano inteiro. E passando por elas consigo lembrar e ver que o ano foi melhor do que eu esperava, e muito melhor do que eu penso sobre ele, hoje. A gente nunca tá satisfeito. Eu sempre estou reclamando. Eu vivo ansiosa por tudo que falta e por tudo que não consegui, e assim mal aproveito o caminho, os meses, as centenas de fotos, e tudo o que há neles. Eu sorrindo em todas.

E, passando por elas, vejo tantos livros quanto lançamentos de livros quanto eventos de literatura. Literatura. Eu passo as fotos e vejo a literatura esborrotando, quase. E lembro de quando comecei a fazer Letras, 2013, cinco anos depois de tanta Psicologia. A sensação era única e ainda é: tinha a certeza de que a minha vida tinha começado ali, naquele momento; tinha a sensação nítida de que estava viva, de que tinha vida dentro de mim e dentro dos livros. E, claro, tive ainda maior certeza do quanto estava morta antes.

Muita vida nas fotos. Os sorrisos abertos e os cabelos tantas vezes soltos e bagunçados. Parece que o ano foi de braços abertos, uma sucessão de abraços dos sorrisos, do corpo, dos cabelos, dos encontros. Tudo escancarado e disposto a ser feliz - mesmo que em muitos momentos não fosse.

As viagens e os lugares tão perto e tão incríveis (São Bento). Os lugares distantes que fui de novo: as ruas de Montevidéu. As comidas que provei e repeti nesses lugares, e a lembrança que as fotos trazem do gosto e do cheiro. As fotos trazem gosto e cheiro e sons, tudo muito vívido. E a gente tão empenhado em gravar vídeos... Eu fico com as fotos. Elas congelam e mostram menos do que pode ter dado errado naqueles instantes. Houve mais do que deu certo.

Passo mais fotos. Repito. Tento alocá-las em todos os labirintos do computador e de fora dele - nuvens e pen drives. Não encontro o hd externo. E prometo, pela vigésima vez no ano, que comprarei um amanhã (sempre amanhã). Também prometo, agora pela centésima vez, que irei revelar boa parte dessas fotos. Tenho pen drives com seleções já prontas de fotos de 2012, 2013, 2014. E nada. Postergando pela natureza de postergar. Postergando lembranças vivas e boas.

Eu me envergonho de mim mesma, da minha postergação profissional, e vejo de novo as fotos e lembro de novo de tudo. E percebo como é importante olhar para trás para ter mais vontade de seguir em frente - sempre assim, todos os anos, no clichê. Tenho de respeitar mais essas imagens, e tudo de bom que elas congelaram no tempo. Imagina se eu perco, se fogem, se a nuvem condensa ou os duendes dos pen drives passam por aqui. É preciso resolver isso logo, para não esquecer do que foi, do que tem sido. As imagens melhoram tudo; as lembranças boas melhoram a nós mesmos.

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