terça-feira, 27 de dezembro de 2016

Dando cria

Eu fui crescendo e antes de ficar velha fui envelhecendo muito rápido e criando medos, muitos, pequenos que viravam grandes, grandes desde que nascendo comigo. Fui tendo medo de brigar, medo de brigar e cair, em todos os sentidos, fui ficando com tanto medo de me arrebentar que mal subi em árvores, não aprendi a andar de bicicleta, olhei cotidianamente para as cicatrizes nos joelhos de modo que elas me lembrassem que eu deveria, sim, ter medo, continuar tendo.

Do medo de brigar passei ao medo de desagradar um ou outro e todo mundo e não digo não a nada, não digo não a ninguém, faço tudo que me peço aceito tudo que me dão. Sou um monstro pra mim mesma todo dia, vou me destruindo com esse medo de não ser bom pro outro e nunca sou boa pra mim, e quando decido ser boa pra mim e desagradar o outro eu o faço, fico satisfeita, no outro dia sofro, me arrependo, quero o telefone pra pedir desculpas e quero também que o tempo volte.

Fui pra terapia pra ver se consigo ser melhor pra mim. Ainda não consigo. Fui fazer arte marcial pra conseguir brigar quando preciso. Não consigo. Na hora de ir pro tatame e lutar eu levanto as luvas pro rosto (já coberto por um capacete com grades) e balanço a cabeça que não vou, não vou mesmo, não vou de jeito nenhum, e com os olhos enchendo de lágrimas eu entro com alguém disposto a fingir que vai me ajudar a fingir que sei lutar. Não sei.

Também deveria aprender a cair e tenho de ficar dando rolamentos mas travo na primeira cambalhota. Eu não dou mais cambalhota. Não vou pra frente nem pra trás nem desço de verdade. Eu tenho medo de dar uma cambalhota e não fazer bem feito e machucar o pescoço a coluna e ficar tetraplégica. Eu tenho medo de me machucar. Tenho medo de errar, de não fazer bem feito, de me prejudicar e prejudicar alguém ali do meu lado.

Eu tenho medo de não acertar.

Erro todo dia muito mais por causa desse medo.

Tenho tentado combater e sanar um medo ou outro, aos poucos, caindo melhor de costas e derrubando alguém por cima do tatame. Dizendo não pelo menos a minha mãe (uma pessoa que posso desagradar sempre pois mesmo assim vai continuar me amando, diferente das outras pessoas que irão me odiar por completo se eu desagradá-las um dia, sendo que eu sempre me sinto mal quando a desagrado, e isso é quase todo dia, porque, de novo, tenho medo de errar e fico errando sempre com ela), ouvindo o que eu quero mais - mas como eu não gosto nem consigo gritar, também nos dois sentidos, literal e figurado, aí eu mal me ouço.

Só não enfrento nem combato nem mesmo sei por onde vou quando penso no medo de ser mais sozinha. Se isso se enfrenta, se se dá pra ser maior que ele. Os outros medos a gente desvia enfrenta muda o foco decide voltar pra ele depois e pensa com calma. A solidão não se desvia nem esquece, nem desaprende depois que ela chega e se acomoda. Ela não se esquece nem o esquece, fica mais tempo e por um sempre; te lembra sempre dela ali, feito cabelo amarrado com muita força, dor no ciso e cólica que proíbe o sono. Não vai. Fica mantendo o ritmo, mantendo a lembrança, e ninguém melhora andando por aí com ela dentro de si.

domingo, 11 de dezembro de 2016

Texto ruim dispensável

Alguns tipos de gentes é preciso ter cuidado ou evitá-las. Algumas é melhor que nunca seja preciso interagir socialmente com elas - afetivamente, jamais. Como só eu leio esse blog, vou fazer essa lista pra que eu consiga lembrar sempre dos tipos, e pra que possa editar o post, no futuro, acrescentando outros tipos à lista - retirar, nunca.

Gente que não gosta de cachorro.
Compreendo que alguns tenham medo e que outros tenham preguiça de limpar cocô no chão todo dia, mas não entendo. Não entendo que não se goste de cachorro, que prefira-os longe, que não se tenha vontade de abraçá-los, que não sorria quando se vê um se aproximar, que não pense em como a vida é melhor com cachorro e em como eles são melhores que pessoas e que portanto o mundo com cachorro é melhor do que um mundo sem cachorro, só com pessoas. Um mundo sem cachorros e com pessoas que não gostem de cachorros então, impensável, invivível, Deus me livre.

Gente que não toma café. 
Acho que não são pessoas de confiança.
Café é indispensável para existir, acordar, trabalhar, cumprimentar as pessoas no elevador sem sentir ódio. É necessária pra socializar à tarde e pra conviver consigo mesmo todas as manhãs. Tem sabor, tem variações, causa tremores a cada 12 horas sem tê-la por perto. Uma pessoa que consegue viver sem isso, e, impossível!, uma pessoa que não gosta disso, com certeza não é boa gente.

Gente que conta sua piada pros outros como se fosse dele.
Se afaste. Essa pessoa não presta, óbvio.

Gente que come pouco.
Também não merece confiança. Essas pessoas têm sérios problemas de saúde ou de caráter.

A pessoa que propõe o amigo secreto todos os anos, perto do Natal.
Níveis de carência elevados. É difícil lidar com gente assim, aposto nisso, porque sou carente (mas nunca proponho amigo secreto).

Gente que faz textos do tipo "lista" em blogs que não são lidos por ninguém. 
Desconheça. Sequer cumprimente.

Exercendo a maturidade

Aprender a tocar violão produz o retrato da sua maturidade e do quão adulto você já consegue ser.

Depois da terceira tentativa de entrar no ritmo da música, eu quero começar a chorar. Na quarta tentativa, eu me levanto fingindo que estou chorando e bebo uma água para me acalmar como se eu estivesse, antes, tentando resolver um problema grave cuja solução só eu sei. 

A quinta tentativa não existe, eu passo pra outra música.

A outra música eu toco uma coisa que já sei tocar desde a adolescência - ritmo balada, quatro acordes, letra pobre. Cada pestana é um som horroroso. Fico cabisbaixa, passo pra outra música. 

A outra música tem mais pestanas, então o som da música é horroroso e minha voz acompanhando torna tudo ainda mais freak show. Penso nos vizinhos, e como não gosto deles, canto mais alto e mais desafinado e com as pestanas ainda piores. Mas canso e volto pra primeira música, do ritmo fácil que pra mim é impossível (inclusive entra no rol das músicas que parecem fáceis mas que não são fáceis a "Não é fácil", ok, segue). 

Tento mais seis vezes, seis ou sete, até perceber que o ritmo sacudido da mpb virou um pagode na minha mão. Grito e tenho vontade real de bater com o violão no chão, mas claro que não faço isso, mas ajo do mesmo jeito quando tenho vontade de fumar e evito por motivos de saúde e pragmáticos (não ter cigarro no momento): me imagino praticando a ação. Alivia. 

Abro um vinho. Passo pra outra música de quatro acordes e letra pobre que também consigo cantar. Voz horrível, cifra que segue. Toco cinco vezes a mesma música até que eu comece a achar que sei tocar violão. 

Tento a música do ritmo impossível, não sai; quase choro, quase grito, quase jogo o violão no chão, ainda bem que estou tocando o violão que era de vovó, penso, porque se fosse o meu acho que já teria feito isso, ou arrancado as cordas, bebo mais. 

Depois da terceira taça de vinho, toco todas as músicas como numa playlist. Ou penso que consigo fazer isso.  Durmo bêbada e digo pra minha professora de violão que estudei bastante durante a semana. 

Antes que comece

Desativar parte das redes sociais evita recomeço do ciclo depressivo. Parece.
Reduzir visualização contínua e diária de felicidade exagerada e alheia evita recomeço do ciclo depressivo, parece.
Evitar contatos sociais reais continua ajudando evitando reduzindo início depressivo.
Parece que não resolve mas ajuda saber o que acontece antes do início do ciclo depressivo. Não o que acontece no início, porque se tem início já é certo que tem meio e tem fim, não se cancela nem retrai, só atravessa - a única forma de não atravessar o ciclo completo depois de iniciado já sabemos qual é. Pois que se saiba o que acontece antes de começar, os sinais fracos do que já é certo de vir.

Menos redes sociais menos pessoas menos contato social também, real e virtual, tudo evitado, tudo proibido. A bolha é o melhor lugar. Nunca acreditar nos conselhos de leitor de livro de autoajuda de que sair de casa é bom, interagir faz bem, é necessário ver pessoas e fazer novos amigos.
Ver pessoas e fazer novos amigos é completamente melancólico. A vida social é completamente melancólica.
Cada um no seu ciclo, nos seus sinais e no seu início.
Fuga absoluta e isolamento repetitivo. Pra aguentar. Pra atravessar. Pra sobreviver.

terça-feira, 15 de novembro de 2016

Portanto ansiedade

Eu tava no mestrado e sonhava mês sim mês não que meu orientador morria. Que meu orientador fugia. Que tudo dava errado. O meu orientador e minha co-orientadora viajaram para fora, em pós-doc. Fiquei sozinha. Deu tudo errado. O delineamento estatístico pretendido não dava pra fazer porque a amostra tinha variáveis inesperadas. Na coleta, eu rodei o teste errado sem perceber que ele estava errado. Refiz, perdi dados, coletei outros. Eu fiz duas qualificações com praticamente tudo dando errado e na segunda eu estava sozinha; os dois orientadores fora de Natal. Eu subi no palco e mostrei que tava tudo errado e disse que não sabia o que fazer. Enquanto isso eu continuava sonhando que eles morriam, fugiam, que tudo daria errado até o dia da defesa. E muita coisa deu, realmente.

Já sonhei que o orientador pretendido pro doutorado morria. Era horrível, era pesado, eu ficava mal com a morte e depois ficava mal pensando que não conseguiria terminar meu trabalho e acordava mal com a culpa de ter pensado um absurdo desse enquanto sonhava já que uma pessoa tinha morrido e eu estava sendo egoísta como sempre sou e como sempre fui sem nunca admitir. Aí eu sonhei outro dia que na entrevista, que é depois de amanhã, que eu não consigo parar pra pensar racionalmente em mais nada do que nessa entrevista, que eram três os membros da comissão: dois que de fato são, na vida real, um terceiro que não é da comissão real, mas um cara que faz kung fu comigo. Aí somente o cara do kung fu me fazia perguntas, enquanto um dos membros da comissão estava deitando em um divã mas não com a barriga pra cima e de costas pra mim, mas meio de lado, com a barriga meio pra baixo, numa pose meio diva, com a cabeça virada pra mim, apoiada no queixo. Ele não falava nada e eu tentava explicar meu projeto. O cara do kung fu que no meu sonho era membro da banca pergunta se eu toparia ser orientada pelo cara que estava no divã, caso meu orientador pretendido ficasse cheio demais. Meu orientador pretendido está cheio demais.

E aí enquanto você tenta se preparar para uma entrevista assim importante você tem que estudar mas não estuda porque não consegue parar de pensar que tem uma entrevista a fazer, que não imagina como pode ser, se um dos avaliadores estará no divã  ou se o sonho de o orientador morrendo era um símbolo avisando que ele não será seu orientador. Portanto fracasso. Você precisa estudar mas não consegue ler três linhas sem que sua cabeça pense em vinte e três diferentes tópicos em um intervalo de minuto e meio. Você tenta. Portanto fracasso. Você precisa correr em círculos e gritar mas mora em apartamento e aqui não existe um quintal. Portanto fracasso. Você come tentando se controlar e toca violão imaginando que está se acalmando e se acalma mas depois passa a suar novamente e a tentar estudar sem conseguir, e o dia foi todo assim, em vão, tentando estudar sem conseguir, tentando ler sem conseguir, tentando frear uma cabeça acelerada que disparou desde de manhã cedo e não pretende voltar tão logo.

E pensar que o dia foi em vão traz mais ansiedade visto que: te diz que você perdeu tempo, não estudou, não se preparou, não consegue sentir sono nem parar de suar, que deveria ter se esforçado mais, que deveria ser uma pessoa mais organizada e disciplinada que não foi que nunca foi, que no dia da entrevista não poderá subir ao palco dizendo que deu tudo errado, por favor me ajudem, estou aqui pra isso, porque aí é portanto-fracasso outra vez.

Torcendo pra que quinta não seja portanto-fracasso. Que dê certo, que eu não tenha dor de barriga e que a sudorese fique controlada pelo menos durante a entrevista. Tomara que o cara não esteja no divã, meu Deus, tomara. Tomara que o orientador não morra, nem ninguém, que nenhuma tragédia aconteça, que eu durma, que eu estude, que eu passe.

Era segredo mas aí não sei.

terça-feira, 23 de agosto de 2016

Em direção à bolha

Lembro que quando minha vó morreu, uma das coisas que mais me arrependi e lamentei foi de ter estado na presença dela com pressa, até me querendo ficar, mas tendo de ir embora pra aula ou pro estágio. E eu nem gostava da aula e do estágio que eu frequentava na época. Também lamentei que muitas vezes eu estava cansada e dormia na cama dela, ao invés de conversarmos mais antes ou depois do almoço.

Continuo com pressa, com mais trabalho e mais aula - sendo que agora eu gosto de ambos, e correndo e chegando atrasada. Também tenho muito sono, porque eu gosto de dormir em horas infundadas como seis da noite e onze da manhã, e a vida normal não permite muito isso. Mas parei de correr quando estou com os outros, pelo menos acho que sim, tento que sim, vou desse jeito. Passei inclusive a comemorar meu aniversário, a data mais desconfortável do meu calendário, porque sei que poder estar com pessoas que gostamos é a única justificativa para estar vivo.

Mas hoje também interajo cada vez menos, ou cada vez com mais dificuldade e desconforto, e mais distante do que eu tinha por ideal (e por objetivo, depois que ela se foi e tomei tais resoluções). Desisti de disputar com o celular dos outros e preferi ficar em casa. Todas as vezes. Interagir socialmente já é um pouco difícil pra mim, tenho de lidar com uma aceitação própria que ainda construo, e com tentativas muitas vezes frustradas de ser agradável com quem está ali; e isso ficou impossível com pessoas que são acopladas aos celulares. Eu entendo e nem condeno. Mas também prefiro ficar no celular dentro de casa, de pijamas e sem maquiagem, do jeito que prefiro existir, inclusive. Deixei de aceitar convite.

O problema foi que também ficou um tanto mais difícil estar com os outros em vias virtuais. As pessoas que moram longe ou as que moram perto mas que têm pouco tempo livre - são muitas. Não falta assunto mas falta tempo, e, sintomaticamente, falta interesse. Nada se avança muito, agora; a conversa é entrecortada e faz tempo que não leio uma pergunta sobre como se está, se vai tudo bem. Nem vai. Mas não dá tempo de dizer nem de se ver pra dizer. E começar a falar espontânea e desesperadamente incomoda. Incomoda tanto quanto esse vitimismo meu de agora, mormente confundido com carência, necessidade de chamar a atenção, e lacunas psicossociais da primeira e segunda infâncias.

Meu aniversário vai vir e vou comemorar mesmo assim. Sem estar tudo bem, estando tudo bem, porque essa pergunta não existe mais, e também com celulares, 3g, 4g, com muita saudade da minha avó e em casa, claro. Que tudo me livre de sair daqui e existir lá fora.

segunda-feira, 25 de julho de 2016

Obedece: tem-que

Mas tem que na hora da festa tem que tem que calçar o salto alto sim tem que colocar o salto tem que doer não tem que doer na verdade mas dói porque os pés não foram feitos pra estarem em cima de salto mas em cima de chão mas aguenta tem que ir vai ficar feio se não for vai ficar deselegante tem que ir elegante.

Tem que maquiar sim e saber se maquiar toda mulher tem que saber se maquiar toda-mulher não pode achar ruim encher a pele de produto químico pra ficar bonita sem ficar só porque não vai ser você não vai parecer você vai ser parecer outra pessoa mas tem que ser parecer essa outra pessoa que é a pessoa mais bonita como se fosse sua parte melhor.

Não basta tem que ser magra tem que emagrecer tem que ser magra mas não muito que mulher magra demais é feio o corpo tem que ser bonito a roupa tem que ser apertada tem que apertar mostrar que tem a bunda feita não feia a bunda bem feita a barriga bem reta quase ninguém consegue ficar com a barriga bem reta mas umas seis no mundo conseguem então você tem que ficar igual a elas.

Também tem que saber cozinhar e fazer comida saudável e fazer comida boa e quando tiver filhos tem que fazê-los comer tudo isso também fruta verdura suco verde muita chia não é bom glúten não é bom lactose e essa queda toda por doce é coisa de gente fraca é coisa de gente frágil de mulher desesperada e ansiosa olha a barriga olha a bunda olha o exemplo pros filhos tem que emagrecer ser exemplo pros filhos subir no salto alto se arrumar bem já aprendeu a se maquiar né?

Tem que trabalhar ser inteligente chegar lá na frente chegar logo ser prodígio olha só suas amigas trabalho bom, casamento, bunda pra cima, barriga lisinha, salto alto maquiagem em dia maquiagem todo dia, vai você academia às seis da manhã depois supermercado depois levar as crianças pro esporte depois trabalho depois almoço comida saudável muita saladinha depois as crianças têm aula depois trabalha de novo depois janta tapioca que não tem glúten não engorda vai no shopping compra um salto alto lembra das crianças lembra do trabalho, hoje você não produziu muito amanhã precisa ser melhor, dorme cedo pra não ficar com olheiras pra não ficar com cara de cansaço de quem vive pelos outros, tem-que estar sempre bonita.

Se não não é mulher.

E vê se não se queixa se não escreve se não conversa sobre isso não tem pra que mulher não faz drama mulher não se cansa mulher aguenta tudo - magra maquiada mãe executiva em cima do salto etc e vai não olha pra trás nem reclama.

Dorme cedo. Amanhã tem mais.

quarta-feira, 22 de junho de 2016

Adeus com lembrança

Depois que a gente começa a fazer um curso de licenciatura a gente descobre que foi parar ali por causa de algum professor do colégio. Quase sempre. Depois que entra pra fazer Letras Português se dá conta que quem te fez decidir por aquilo foi um professor de português ou de literatura.

Eu estava no meu quarto ano de Psicologia ainda insistindo naquele negócio que não ia dar em nada (só num diploma que eu não ia usar nunca), e tive o insight quase-tardio de que eu deveria fazer Letras. Meu negócio de escrever não era assim tão sério (nunca será), e também já não era mais uma opção voltar atrás e tentar ser jornalista. Eu deveria estar no curso de Letras há muito tempo; tive essa certeza numa tarde. E não precisava dizer a mim mesma o que eu iria fazer com essa nova graduação: não sei se gostaria de ser professora, mas tinha a absoluta certeza de que meu lugar era nesse tipo de sala de aula, da licenciatura.

E foi nesse ano penúltimo de Psicologia, eu passando na calçada do CCHLA e indo pro SEPA atender uma criança (ainda bem). Encontro: Guilherme!, eu gritei e ele sorriu. Perguntei o que ele estava fazendo ali, já que os corredores onde eu o encontrava eram antes os do colégio: vou começar o doutorado. E você? Tá gostando do curso? Não, tô não. Mas decidi o que eu quero: vou fazer Letras. Ele sorriu satisfeito. Perguntou se eu estava feliz com a decisão. Eu disse: sim, muito, só meu pai que ficou louco com isso. Ele: ah, o meu também ficou!

E quando eu estava no segundo semestre do curso me dei conta que tinha ido parar ali muito por conta dele. Que se eu gostava de Português antes, passei a gostar ainda mais depois de dois anos com esse professor - os dois últimos do ensino médio, na rabeira do vestibular, por que naquele dia em que considerei ser professora de português não levei logo a sério? Decidi por outra coisa, mas voltei atrás em tempo (sempre é). E meses depois de eu ter me dado conta do quanto minha vida mudou e se definiu por causa dele, soube que ele estava bem doente. Soubemos, os ex alunos. Chorei de raiva aquele dia, sabendo que aquilo não podia ser certo, mas tive certeza que tudo daria certo depois, também.

Enquanto também tive certeza de que qualquer dia eu ia me encontrar com ele para dizer que já era professora, que a culpa era dele, ainda bem, e que enquanto eu estudava e reestudava a gramática fazia do melhor jeito possível, que era pra um dia conseguir dar uma aula tão boa quanto as que eu tive. Sei que não vou conseguir, mas dizer isso valeria o esforço e a decisão que tomei a tempo de ser feliz.

Mas não houve tempo de dizer. Não houve tempo de deixar os livros que escrevi, já separados pra entregar na semana passada. Também não vai ser mais possível tirar uma dúvida de português quando surgisse de novo. Ele teve de se despedir e descansar, num finalmente, num eterno, e depois da raiva que senti de novo, quando soube, me encontrei diante de um buraco, de uma gestalt que não fecha, onde eu não posso dizer nem mostrar, à quem é de direito, o motivo de eu ser profissionalmente feliz. Já sou, antes mesmo do diploma. Mas sempre vai faltar um pedaço pra eu sentir a felicidade que achei que poderia dividir com ele.

Não tá sendo fácil, como também não deve ser fácil alguém de fora entender esse peso e essa medida. Mas não podia deixar que essas palavras passassem, não ficassem. Por isso um texto a quem também me ajudou a escrever mais, e melhor, com a paciência que nunca tive, em uma tentativa desengonçada de dar adeus.

segunda-feira, 20 de junho de 2016

É só cabeça

“É só cabeça”, ele disse. “Você vai conseguir. É só cabeça. Vamos tentar de novo.” 

Descobri tarde e em cima da hora que tenho a cabeça fraca. Pouca e fraca, cabeça pouca e muito fraca. Bati uma, duas, três, mais de trinta vezes na madeira. Bati muitas. “Você tá fazendo tudo certo; só falta acreditar que vai conseguir.” Então falta tudo, pensei. “Pensa que vai atravessar a madeira, e não que vai só bater a voltar.” 

E a cabeça fraca avisa pra língua já pronta em dizer que claro, vou atravessar, vai dar certo, vai sair, é só a cabeça, e ponho a cabeça no lugar e avanço a mão. Mas nunca.

E a cabeça vai ou sempre foi fraca, e mesmo não adianta o corpo ficar mais forte, a mão mais dura, a porrada formar o calo e eu aguentar dias de dor sem pomada nem gelo. Com a cabeça fraca a gente não se dá pra usar o corpo nem a força nem quebrar madeiras, nem quebrar as verdades que inventei sobre tudo que não consigo (ainda). 

Imagina se acredito que vou atravessar alguma coisa por aqui, alguma coisa só com minha vontade, eu comigo mesma. Se vou tão em frente assim. Imagina se não tenho medo de bater com a cara na porta (de madeira) (de novo). Já ando tão acostumada, que bato assim mesmo: vou e volto, volto, machuco, sofro, nunca atravesso. Nunca passo da linha certa. “É só a cabeça”. “Você precisa acreditar”. E não consigo. Se sempre foi difícil acreditar em qualquer tudo que eu fizesse, imagina agora, que eu tenho que acreditar que tenho que acreditar. 

Acho que anda mais fácil arrebentar a madeira com a própria cabeça. Vou tentar amanhã, que pode ser que eu atravesse, dessa vez.

quarta-feira, 11 de maio de 2016

Ser arrependida

Pois eu vivo arrependida. O tempo todo, todo dia, sempre sempre. Agora mesmo. Tô arrependida porque não fui dormir cedo, porque ainda não fui dormir, porque estou no computador pensando em tudo que consigo fazer agora, o que não consigo mas deveria, e em tudo que quero fazer ainda. Como se fosse possível eu trabalhar, estudar e escrever numa velocidade e qualidade invejáveis em um espaço de três horas, por exemplo. Só que nessas três horas entraria a alta madrugada e eu teria que dormir bem pouco, acordar cedo pra trabalhar, e teria um dia ruim - mas eu teria feito todas essas coisas agora, e aí me arrependeria por dormir pouco, mas não por ter feito tudo isso agora nessas três horas, mas me arrependeria em seguida por não ter feito tudo tão bem.

Eu vivo me arrependendo por não fazer tudo tão bem. Veja. Fui à nutricionista. Continuo indo. Começo a fazer dieta, etcétera, coisa e tal, mas, é claro, a mulher quer que eu não coma pão nunca mais na minha vida e eu sei que não vou conseguir isso nunca e também sei que não deveria cortar nada radicalmente das minhas escolhas porque acho isso radical e tento não ser uma pessoa radical, que consegue viver com moderação. Não consigo. Mas eu tento. Aí que toda vez que como algo fora da dieta na hora acho muito certo, é claro, mas me arrependo cinco minutos depois. E em todas as horas subsequentes. Até que complete quarenta e oito horas de dieta absoluta e eu não fique mais mal. Só que quando completam quarenta e oito horas de inanição do glúten e do leite eu já sento pra comer o que não devo (?), aí sofro de novo.

Também fico arrependida porque durmo depois do almoço. Porque eu deveria trabalhar depois do almoço. Ou estudar. Ou tocar violão. Olha, porra, de novo. Hoje não toquei violão. "Pelo menos quinze minutos todo dia pelo menos quinze minutos todo dia pelo menos quinze minutos todo dia". Não consegui os quinze minutos. Devo ter perdido no Instagram - a cada vez que vou ao banheiro - fazer qualquer um dos números - levo o celular e fico quinze minutos no Instagram. Um xixi que dura quinze minutos, veja aí. Poderia levar o violão, ou o livro de alemão.

AH, é. O alemão. "Pelo menos quinze minutos todo dia" e nessa de não encontrar os quinze minutos que estão sempre na minha cara já se passaram os meses. Me arrependo sempre, quando lembro. Lembro todo dia.

Há poucos minutos me arrependi, também, de ter lido pouco hoje. Foram só algumas páginas, esperando o almoço, esperando o carro lavando, esperando quase nada porque hoje esperei pouco, fiz tudo andando. Aí li pouco. Me arrependo todos os dias por ler pouco, pouco demais, menos do que deveria e gostaria.

E agora, arrependida de estar indo dormir tarde novo, que todo dia eu digo que vou dormir cedo e todo dia durmo tarde e todo dia me arrependo assim, vou deitar com um livro e jurar que amanhã vou fazer mais e me arrepender menos. Pelo menos quinze minutos, todo dia, vou tentar me arrepender menos. Quinze minutos.

terça-feira, 12 de abril de 2016

Não dá.

Eu comecei a escrever o livro em 2013, pelo final de 2013. Eu tinha feito uma oficina de escrita criativa com o Daniel Galera, em maio, por ocasião do Ação Leitura, e na sequência fiquei escrevendo contos. Por exercício e prazer e vontade, claro. Antes da oficina, eu tinha um conto, realmente conto, já escrito. Depois dela, cheguei a uns quinze, acho. Nunca parei pra contar.

Mas reuni e vi que dava um livro. E quando reuni vi que os contos eram monotemáticos. E que isso favorecia que assim fosse um livro. Mas que não era livro ainda porque não tava tudo bom, os contos não estavam assim, tão bons, um ou outro se salvava. Mas o livro estava "pronto". Era meu primeiro livro.

Alguma coisa me atropelou pelo caminho, que foi eu mesma, e fui lançar outro livro, reunindo textos também monotemáticos, praticamente, num outro volume aí, que a galera saiu comprando. Nunca entendi quem comprasse esse livro, mas ok.

Mas o primeiro livro, que agora seria o segundo, estava pronto. E terminei confessando ao editor que o livro estava pronto. Aí chegaram: ISBN, ficha catalográfica, data de lançamento. E o primeiro livro que estava pronto não está pronto. Nem vai ficar, é o que parece.


Lembro que quando estava me esforçando em fazer daquilo realmente um livro, um conjunto, uma coleção boa de contos, mandei alguns e-mails para amigos pedindo que me lessem. Alguns se voluntariaram, receberam meu original, e nunca me escreveram de volta. Outros nunca responderam. Uns dois, três, se propuseram a ler. Mas os feedbacks foram pela metade, ou não os tive.

Pensei que era tudo tão ruim que não havia quem lesse o livro até o fim, ou que, quem o lesse, tivesse vergonha de me dizer que era melhor eu guardar aquilo na gaveta (mas eu não tenho gavetas).

Insisti. Porque decidi que era o momento, o hoje, de publicar esses escritos, que se passar mais do tempo, não vou mais ser eu escrevendo aquilo, publicando aquilo. (O que só corrobora a ideia que o negócio não é tão bom assim, é frouxo pelas pontas.)

E depois que decidi publicar, passei a receber feedbacks tardios que só me desanimavam. O livro parecia cada vez pior. As sugestões que vinham eram cada vez mais exigentes e que tanto mostravam buracos. Me senti no dia da minha defesa de dissertação, tentando argumentar que eu havia feito um bom trabalho, sendo que eu sabia que não tinha feito grandes coisas. O problema é que, no dia da dissertação, eu não estava nem aí se o que eu estava fazendo tinha sido bom. Eu não estava nem aí se iria ser aprovada ou não. Mas quando eu tento dar corpo a um novo livro, os cabelos começam a cair só de pensar nisso. E, olhe, que são tão poucos que me leem, e eu com tanta frescura.

Meu senso crítico ficou tão estúpido que atingiu um patamar onde eu não sei se estou me julgando ruim demais porque sou ruim demais, ou se estou me julgando ruim demais por ser somente chata demais. Mas, não sei, aposto num meio termo nisso daí, o que já é levemente desesperador para uma virginiana chata, sem problemas reais, que finge ter dilemas existenciais enquanto escreve (e vive).

E a certeza que se avoluma, agora, é somente essa: que o livro não está pronto, nem vai ficar. Esse livro nunca vai ficar realmente pronto, terminado.

E eu vou publicá-lo mesmo assim.

Difícil é ir pra terapia

Fazer faculdade de Psicologia é fácil. Difícil é ir pra terapia.
Também é mais fácil estudar Linguística II e Funcionalismo, Análise Sintática na teoria de Perini, aprender a cozinhar sem youtube, e entender Bakhtin. Difícil é ir pra terapia.
Minha terapia fica num prédio comercial onde, no térreo, tinha uma lanchonete vendendo brownie, bolo, coxinha, e chá (que contrabalanceia o desespero culinário que eu tenho). Eu tinha mais disposição pra ir a terapia, porque na saída podia afundar minha cara no doce e no glúten, e sair de lá com dor de barriga, mas menos depressiva e/ou ansiosa. A loja fechou. E agora ficou mais difícil ir pra terapia.
Seguir a dieta é mais fácil do que fazer terapia.

Qualquer coisa pode ser fácil. Difícil é ir pra terapia. E, enquanto estiver difícil, é que você não pode deixar de ir.

Por agora mas já faz tempo

Eu tinha um texto curto na cabeça pronto pra entrar aqui assim que o site carregasse. Não era nada importante, interessante, tópico de texto real. Era mais um diário. Parece que agora fico fazendo um diário imaginário dentro da cabeça. Tudo isso enquanto abro muitas abas no computador pra não ler nada, e divido, imaginariamente, meu tempo imaginário, entre tudo que eu tenho que estudar para um doutorado numa área que não é a que fiz graduação nem mestrado, a tentativa de terminar um segundo livro, que na verdade foi o primeiro que escrevi, e que nunca parece bom, nunca, nunca parece bom, e toda a procrastinação que inclui olhar receitas da dieta, pensar na dieta, desistir da dieta, voltar a estudar violão, e sentir sono pra dormir logo.

E meus dias são só isso, num looping infinito, num diário onde nada acontece, mas onde penso tudo, absolutamente tudo que eu poderia fazer.

Por isso isso aqui ficou vazio. Igualzinho minha produtividade.

segunda-feira, 14 de março de 2016

Auto carta sobre luas

Tu viu aí a lua que tá se formando pra ficar esses dias. Como ela já tá. Feito C. Feito U. Um U bem gordo tava hoje. Imenso. Vai ser uma lua cheia linda por esses dias, tu vai ver, tu já viu como ela está agora? 

Tocou uma música no rádio e eu me lembrei de você. Na verdade eu já estava pensando em você, como de vez em quando, como costume meu, e a música começou. As guitarras altas, e a Rita Lee. Uma música sobre mulheres e sobre grandes mulheres. Sobre todas as mulheres. Estamos por aí, querendo um monte de coisa. Eu depois da música fiquei olhando pra lua formando-se em U, que daqui a pouco vai ser um O todo cheio. Quase que mudava o caminho que o carro tinha de fazer pra poder dirigir mais de frente pra ela. Quase quis apanhar a lua mais de perto, ficar mais de perto, como num descampado e céu aberto. Enquanto isso pensava sobre você. 

A gente poderia tentar esses dias de novo. O céu sobre o descampado. Ou a praia em dia de lua. Um lugar longe daqui mas não tão longe. Porque, sabe o que eu acho, que esse seu negócio com viagem é só um querer fugir e ficar de fora. O que dói aqui dói menos se tá longe. Até porque eu também fico aqui. E você foge mais. 

E depois que a música tocou e os solos de guitarra silenciaram e eu ainda tinha a lua na minha frente, só me perguntava se você estava vendo isso, se você andava vendo essas coisas. Se ouvia músicas assim, se ouvia letras ou só melodias e nada. Você só ouve música ruim que toca na rádio. Uma música que te faça não pensar em nada, não pensar na vida, não pensar em você. Acho só que você tem que pensar mais em você - olhando pra lua isso fica melhor, por isso digo. Você tinha que ter visto a lua hoje. 

E quando a gente se encontrar, a gente podia falar verdadeiramente de você, poderia falar verdades, poderia falar muito pouco, até, mas a gente teria por obrigação fazer um pouco mais do dia: como ficar de frente pra lua e ouvir uma música que preste. Quanto tempo faz que você não ouve uma música que preste. Você não tem ouvido nada, nem da música, nem de livro, que eu sei. Eu sei que ler, hoje, você faz muito pouco. E que fica escrevendo pra dizer nada, pra fingir catarse. Imagino o trabalho que deve ser ser o seu terapeuta. Coitado. Mas aposto que ele te manda fazer o mesmo: ver a lua grande vez em quando. Ouvir a música certa mais alto. Sentir menos dormência só em saber que tanta coisa existe fora do seu vazio. 

Tu só precisa ver mais as coisas, sabe. E lembrar que tudo ainda existe. Tu já esqueceu disso faz tempo, anos. Já faz tanto tempo. E você aí, de novo sem me ouvir. 

A gente só podia se encontrar. Eu te espero faz tempo. Faz tempo.

segunda-feira, 29 de fevereiro de 2016

Não-casa

Dentro de um quarto branco com móveis cor de pátina clara e sem graça. Duas camas de solteiro coladas uma na outra, um birô, duas cadeiras frágeis, um abajur entre dois para funcionar, criados-mudo, aquecedor e uma janela que poderia abrir apenas 15º para cima dependendo do quanto você girasse a tranca - outro modus operandi permitia abrir a janela por completo para que você congelasse os ossos. Era só querer.

Estando na rua, eu nunca poderia dizer que iria voltar para "casa". Porque, quando voltasse, além de silêncio profundo, não haveria geladeira nem fogão nem nenhum móvel que eu tivesse escolhido com meu mau gosto. Mas eu por vezes dizia, se não prestasse atenção. E não que aquele lugar impessoal e tão feio fosse algo de casa para quem estivesse ali. Impossível ser. Mas sempre que eu chegava ali de novo, eu voltava para um vazio familiar que talvez fosse eu mesma. Que talvez seja tudo o que eu sou.

E não foi ruim por dia nenhum. Nem quando fiquei doente, nem quando fiquei doente da segunda vez, nem quando acabou a comida perecível que era comprada para somente um dia e só me restavam waffles do supermercado e geléia orgânica.

A televisão ficava ligada em canais alemães nunca tão bons nem tão audíveis o suficiente que me ajudassem a aprender. E eu não aprendia mesmo. Estive por ali para aprender alemão, mas gastei quase o tempo inteira aprendendo a estar comigo mesma - e gostando disso. Gostei mais disso do que de aprender alemão, que por algumas vezes foi sutilmente desesperador.

E enquanto eu tinha poucos livros meus, poucas roupas que diziam algo de mim, porque quase tudo era lã e preto e muito quente (e minhas roupas preferidas não são quentes, é claro, vide o lugar onde vivo), e os dias eram quase todos tão brancos e tão belos de se ver pela janela, eu poderia ficar ali, ficando comigo mesma, aprendendo sobre mim e não sobre alemão, lendo a mim mesma e não valter hugo mãe em minúsculas, e o tempo passaria rápido como passou.

Vou sempre conseguir lembrar o céu branco de neve prestes a cair, as árvores sem folhas, a ausência de sol, tudo isso entrando pela janela que eu nunca abria os 15º para cima. Junto com a comida sem gosto e comprada dia a dia, diante a impossibilidade de não poder cozinhar nada - parece tudo proposital para que você não se sinta em casa. Mas por eu ter sido minha única companhia no silêncio e no burburinho do sitcom em alemão, eu estava em casa todos os dias, sem que isso significasse exatamente estar feliz ou não. Significando que, finalmente, eu pude me fazer companhia por dias e noites inteiras, e gostar mais de mim depois de tudo isso. Esse vazio familiar.

quarta-feira, 3 de fevereiro de 2016

Duas Berlins

Há algo que vai ficando à medida que seus dias se passam em Berlim: uma sequência cotidiana de imagens completamente opostas, justapostas, contrárias demais. Determinadas partes da cidade convocam memórias que você, claramente, não tem do lugar: um passado meio sujo, meio duro, meio frio, que não fica esquecido. Não falo de nazismo nem de judeus, estritamente. Mas uma espécie de cidade velha e abandonada que salta aos olhos, ao mesmo tempo em que parece ter sido deixada daquele jeito de propósito, estática, parada no tempo.

Cruzar a cidade do centro ao bairro de Kreuzberg pra tomar uma cerveja (ou voltar no fim da tarde de Kreuzberg para o centro) te apresenta uma sequência alternada de imagens de uma cidade moderna e desenvolvida com visões de um lugar sem glamour, sem muito presente, com muito passado e dureza. Algo que dói um pouco, e que te faz sentir um pouco mais do frio.

Ao sair da estação de metrô que vem de Kreuzberg, é preciso ir para a rua e andar por uma espécie de viaduto/passarela até uma estação de trem de superfície, de S-Bahn, que fica numa paisagem desolada. A escuridão e as linhas paralelas dos trens, os poucos trens que passam, silenciosamente, a visão de boates que, de cima da passarela, mais parecem barracos ou containers (algo duramente hipster e alternativo, mas também desolador, visto no fim da tarde ou à noite, antes que as festas comecem). E a mistura absoluta de pessoas, raças, roupas, odores, que apenas somam a uma paisagem escura, com prédios abandonados ao fundo e boates travestidas de barracos à frente. O frio que faz, e o caldeirão de sujeitos bêbados, sóbrios, em busca de baladas e drogas, outros cansados do trabalho, outros cansados da própria vida. Poucas parecem fazer turismo ou passeio nesse corte da cidade. São muitos os jovens que sobem e descem as escadarias que conectam essa estação ao metrô; enquanto o escuro e o frio permanecem inalterados por qualquer dia de janeiro em que se passe ali. 

Em determinados momentos, parece que se está dentro de um filme europeu, alemão, francês, sueco, muito cult e muito sério, muito ininteligível, também, cujos personagens não fazem parte de nenhuma história de vida verdadeiramente feliz. Algumas partes da cidade de Berlim são assim: pesadas, densas, escuras em todos os sentidos, cenário de filme que não começa nem termina bem. 

Mas um passeio sob trilhos de superfície ou uma caminhada no Mitte sempre te dão a impressão de estar em uma cidade onde tudo funciona, tudo está bem certo no lugar, os transportes, as árvores, os cachorros silenciosos e obedientes, e também as pessoas que parecem viver bem aqui - sem necessariamente parecer que vivem felizes. 

E todos os dias uma alternância de paisagens convoca imagens de um passado que você só sabe pelos livros e pelos filmes (ininteligíveis), mas que sente agora estar tão perto, e imagens de um país que a televisão (aberta e quase sempre meio burra) transmite por aí: o lugar onde as coisas deram certo e continuam bem, estáveis, sem problemas, sem emoção nenhuma também. 

O filme real já parece estar sendo mostrado ao vivo aos nossos olhos. Mas ele é muito mais real lá: onde Berlim é desolada e abandonada. Nos outros cenários de roliúdi nem tudo convence. Mas permanece, aparece, e brilha quando o sol se descobre no meio de tanto frio. 

segunda-feira, 25 de janeiro de 2016

O caminho é melhor

Sábado passado eu e Hezther (fala "Esther" mesmo) decidimos ir ao museu Bauhaus, nas redondezas do Tiergarten. O caminho parecia simples. A escolha do museu foi simples também: tivemos de decidir entre o de fotografia, o de instrumentos musicais, e esse, de arquitetura e design. Bauhaus parecia a escolha mais autêntica e também democrática dentro do nosso grupo de dois, naquele sábado. O lugar era diferente, estaríamos só nós duas, sem pressa, sem horário, com vontade de museu (o que é imprescindível numa viagem - encontrar alguém que queira fazer o que você também quer) e os mapas na mão. 

Não foi tão simples. Sábado caía uma neve incessante em Berlim, e andar pela cidade incluía andar sobre camadas altas de neve, gelo, mais neve que gelo, e passar muito frio. Nesse dia eu pus duas luvas, e também estava com três calças, cinco camisas/suéters/casacos, duas meias, capuz, e me recuperava de uma virose forte, bem forte. 

O caminho foi difícil. O museu não era simples de achar e ninguém nos arredores parecia apontar a direção certa - isso aconteceu comigo uma vez quando estava em Caicó, no Carnaval. O mapa mostrava um caminho curto, que, na neve, foi triplicado. E o tempo que levamos para chegar ao museu rendeu cansaço, dores nos pés, e as primeiras imagens de um lado da cidade que a gente jamais iria se não fosse o Bauhaus. 

Que não foi, pra gente, um grande museu. Se uma de nós fôssemos arquitetas ou designers, quem sabe, talvez tivesse sido inesquecível. Estaríamos como eles lá: com cadernos de papel canson desenhando formas abstratas e aparentemente indecifráveis, que resultavam todas em um complexo artístico, quase idêntico ao original, cheio de cores. Também olharíamos por dezenas de minutos para as projeções que as sombras daquele objeto faziam nas paredes. E iríamos desenhar as sombras. Também as cadeiras, as mesas, aquela cozinha cinza, hermética e esquisita. O Bauhaus foi um museu esquisito. Proibidíssimo de ser fotografado, frequentado por pessoas cuja inteligência artística e cuja capacidade visuo-espacial devem merecer escores altos nos testes psicológicos que conheço. Todos lá sabiam exatamente por que estavam ali, o que observar, o que desenhar, e quais comentários eram realmente apropriados - quase nenhum, porque as pessoas não conversam dentro dos museus, aqui. 

Decidimos almoçar em um restaurante típico, desconhecido por nós, que se dizia perto do museu. Era longe. Era bem longe. No frio de temperaturas negativas, tudo é bastante longe se não for dentro de um espaço com aquecedor. E logo depois que começamos a andar com frio e com fome, ainda confusas pelo que tínhamos feito dentro do museu (o que era que deveríamos ter pensado, exatamente?; eu me sentia bastante ignorante), vimos as mais bonitas imagens de uma viagem.

Berlim estava praticamente vazia: num fim de semana com tanta neve, a não obrigatoriedade de sair de casa faz com que 90% da população fique escondida perto de um aquecedor. Dentre as pouquíssimas pessoas que estavam pelo caminho, vimos três husky siberianos, oito cachorros de outras raças, e quase uma dezena de seres humanos fazendo exercícios físicos. O que foi tão ou mais confuso que os objetos do museu, mas, sim: vimos um tanto praticando jogging às duas da tarde, sob neve. 

Passamos pelo Parque Tiergarten que estava coberto de neve: todos os seus caminhos, todos seus espaços abertos, era tudo muito alvo e muito... simples de belo. As árvores não tinham folha alguma, e faziam o único contraste na paisagem cujo céu era cinza e o chão era branco. Berlim era um quadro quase vazio mas espetacular em beleza, e imenso, interminável. E a ausência de pessoas na rua vendo aquilo tudo só tornou tudo mais icônico, como se só nós tivéssemos descoberto aquelas fotografias, e até quiséssemos que mais gente as visse conosco, mas não havia quem chamar pra perto. 

A cidade estava silenciosa, branca e cinza, gelada demais, mas parecia nos abraçar ao longo do caminho, como um lugar que transmite emoções e pede mais do que fotos: deixa feito lembrança todos os movimentos vívidos desse caminho. 

Demorou um pouco para chegarmos ao destino, que, mesmo bom, não importava tanto mais: o caminho que tinha nos levado até ali não deixou desejo de mais nada. A gente ficou repleta. O caminho que Berlim nos deu de presente esse dia. Vou lembrar por muito tempo. 

domingo, 17 de janeiro de 2016

Por que vamos todos juntos

Em qualquer grande cidade do mundo, parece ser inevitável encontrar muitos brasileiros e ouvir muito português. Em Dublin, eu ouvia mais português do que inglês, nas ruas - até porque brasileiro fala muito mais do que qualquer outra nacionalidade, então isso também explica o cálculo.

Aqui em Berlim não é diferente. Na escola, nos intervalos das aulas, se ouve o português muito alto que a gente fala com a educação que não temos. No primeiro dia de aula, todos os brasileiros se reconhecem pelos traços e pelos olhos que parecem procurar empatia. Brasileiros têm disso (eu acho) (posso estar bem errada, mas acho). Procuramos empatia nos rostos dos outros, porque somos empáticos demais, olhamos nos olhos sem vergonha, e sorrimos com qualquer brecha.

E lá estávamos todos juntos: grupos de amigos brasileiros. Sempre pontilhados por um francês, um inglês, um suíço que seja, mas os brasileiros juntos e barulhentos. E quem fica no Brasil acha que isso é ruim, que isso é péssimo. Ir pro exterior estudar língua estrangeira e ficar andando de braço dado com tanto brasileiro. Mas parece anti-natural evitar isso. Não parece certo andar sozinho num lugar em que todas as pessoas já são solitárias em si mesmas.

A gente se aproxima porque é difícil estar tão longe de casa e ter de se acostumar com silêncio, com temperaturas negativas, com poucos sorrisos e pessoas antipáticas e racistas pelas ruas. Porque também não é fácil se acostumar à ausência do feijão e do arroz, da farofa, ou com uma televisão cujos canais parecem tão ruins e desinteressantes. E o silêncio o tempo todo e tantas vozes baixas. Nenhuma música horrorosa que passe pela rua, um carro com auto-falantes, nada que não seja indiferente à nossa existência - tudo o é.

Brasileiros andam juntos porque são incapazes de serem indiferentes uns aos outros. Até os que jamais seriam amigos dentro do Brasil, a patricinha que não vai com sua cara, a sulista que acha que o nordestino não fala o nome dela certo porque não chia, o menino dez anos mais novo, a mulher vinte anos mais velha, eles podem até tentar se evitar, vez em quando, serem mais indiferentes, mas nunca são. O brasileiro sempre lembra de perguntar se tá tudo bem, se tu precisa de algo. Sempre reconhece o outro infeliz e com vontade de voltar pra casa, e, à despeito de muitas diferenças, não quer deixar ninguém na mão. A gente anda na contra mão do mundo, e por isso andamos todos juntos nos outros países, falando português alto, incomodando as pessoas do metrô, alimentando mais preconceito em quem não gosta de latinos. É inevitável.

Se a gente não se une, perde toda a nossa força, e vamos que terminar iguais aos europeus que nos detestam (não são todos, mas há): tristes, solitários, indiferentes, sem vontade de estar junto de ninguém. Mas rir tanto e falar demais é mais da nossa natureza. Ter gente por perto também. Que sigamos assim - fica mais fácil de suportar todo o resto.

Memorial do Holocausto

Por baixo do memorial do holocausto, há um museu contando a história, os fatos, a vida das famílias, e mostrando fragmentos de diários e cartas de judeus perseguidos à época. Uma passada rápida em frente ao memorial, pela calçada de fora, o vento gelado no rosto, o dia cinza por cima e as lápides cinzas por baixo, você olha um pouco, fotografa um pouco, não sente assim tanta coisa e entra na fila. O frio incomoda e diz que é melhor descer pro museu. Lá embaixo tem aquecedor. 

Na fila, ainda do lado de fora, ainda ao ar livre naqueles três graus celsius, você olha mais a sobreposição de cinzas na paisagem: céu, árvores escuras sem folhas, lápides e chão. 

À entrada do museu, depois de passar seus pertences por detector de metais, guardar mochilas e casacos, a primeira sala mostra uma linha do tempo que conta o holocausto em história, geografia, números e nomes - mas o de Hitler só aparece na metade do caminho. As pessoas estão numa fila lendo a história sem pressa. A iluminação é baixa e as placas são escuras, com uma luz acima delas para que a gente possa ler.

A próxima sala expõe pedaços de cartas, cartões postais e diários de judeus perseguidos. Os trechos ficam projetados no chão, e nas paredes há os números de judeus mortos em cada país europeu: a Polônia é a campeã, seguida da Alemanha. 

Nos trechos das cartas, as despedidas e as frases de que "não vamos nos ver nunca mais". A despedida absoluta de um senhor que se matou logo depois de escrever o cartão postal. A mãe que diz aos filhos para fugirem para a casa do pai, e que diz que nunca mais irá vê-los, que os ama demais. E o relato das crianças que choravam alto no campo de concentração por estarem com fome - e o choro delas era silenciado por inúmeros tiros que os oficiais começavam a dar do lado de fora. 

Nesse vão, há bancos como as lápides de lá de fora: eles ficam bem de frente para as cartas mais entristecedoras. As pessoas lêem o trecho em inglês ou alemão, vêem a fotografia do papel manuscrito, e não falam absolutamente nada. Ninguém fala absolutamente nada lá embaixo. Ninguém tira fotos. Ninguém faz perguntas. O silêncio é pesado e a vontade de chorar segue às vezes.

A próxima sala conta a história de diversas famílias judias: a peregrinação que seus membros tiveram de se submeter à época do Holocausto, a quase totalidade de mortos, os raros sobreviventes, suas fotografias em preto e branco com os pais, avós, crianças. Achei que já estava ficando impossível de ler tudo - eram menos de vinte famílias, ali, mas o peso das informações e a culpa misturada com indignação que se sente tornam mais difícil continuar as leituras. Passei os olhos. Não olhei muito nos olhos deles, também. As imagens de pessoas que não imaginavam o que estaria por vir - como que iriam terminar um dia. E o silêncio continuava a pesar no museu. 

Na saída, depois de pegar de volta os casacos, a mochila, e subir em direção ao dia cinza e frio, você emerge quase no centro do memorial, de frente pra lápides mais altas, mais pesadas, mais perto de você. E você se sente mal de novo. Se lá embaixo, a tristeza incomodava, nessa saída ela sufoca, literalmente. As lápides estão muito acima da sua cabeça, o caminho é estreito, e nas tentativas de saída você sente tontura. Não é fácil achar o caminho numa primeira vez, e não é confortável estar ali. 

O dia continuou frio, cinza e úmido, e eu saí de lá com uma mistura de pesar e de culpa, como se fôssemos todos responsáveis por genocídios como esses, por torturas como essas, sem motivos para tal massacre - como se houvesse, na nossa história, motivos para massacres. 

quarta-feira, 13 de janeiro de 2016

Em Berlim

Fazia sol quando cheguei em Berlim. Naquela soma de pouco sentido do sol com o frio, o sol e o gelo no chão. O frio nem castigava. Mas o cansaço sim. O tênis errado também, e a solidão iminente em um mês que teria poucas horas de dias e muitas horas de noite. Mas eu sempre quis estar aqui. Sem saber por que tanto quis.

E é difícil estar sozinha uma primeira vez. Deliberadamente sozinha. Em corpo e na língua e na cidade grande demais. Eu vim pra cá pensando em Dublin. E aqui não tem nada de irlandês - mal tem cerveja irlandesa. A cidade é tão grande que foge, que não cabe no mapa que a gente vê.

Domingo peguei um ônibus daqui até ali. Medo de me perder. Endereço na mão. Inglês sofrido do motorista de ônibus. E vai. Com o frio e a chuva na cabeça, a falta de gente na rua. Janeiro parece por aqui cheio de ausências, de vazios, de pessoas que andam apressadas com as mãos nos bolsos sempre, olhando para baixo. Quando não cai o chuvisco gelado cai a neve. E a gente anda mais rápido olhando mais para baixo.

Do ônibus, se vê uma cidade moderna e limpa, e linda, sem ser exagerada nos traços de nada. Imponente. Algumas pessoas imponentes e muitos prédios imponentes. Do trem se vê uma alternância de mundo velho e mundo novo, de um passado agonizante e de um presente onde tudo parece certo e no seu lugar. Há momentos, aqui, em que absolutamente tudo parece certo e no seu devido lugar. E em outras paisagens, se vê ruína e tristeza, um ar underground cultivado nos filmes e nas fotos conceituais de looks de roupa.

Como qualquer brasileiro, fiz amigos brasileiros no primeiro dia de aula. E foram muitos. Também graças a eles sou capaz de me deslocar de metrô dentro duma cidade desse tamanho - o mapa das estações me dão saudade de estudar trigonometria, de tão impossível que se é entender um metrô.

A comida barata, o vento gelado, a cerveja a centavos, o dia curto, o velho e o novo, a ruína e o monumento brigando e se complementando na paisagem, tudo isso confunde e faz bem em mesmo tempo. Tudo isso me carrega pelos dias e deixa Berlim mais enigmática que compreensível em si mesma. Grande demais, cosmopolita demais, diferente demais. E ainda tem tempo. Eu vou me deixando levar enquanto fico todos os dias aqui. Quase um mês pela frente.