segunda-feira, 25 de janeiro de 2016

O caminho é melhor

Sábado passado eu e Hezther (fala "Esther" mesmo) decidimos ir ao museu Bauhaus, nas redondezas do Tiergarten. O caminho parecia simples. A escolha do museu foi simples também: tivemos de decidir entre o de fotografia, o de instrumentos musicais, e esse, de arquitetura e design. Bauhaus parecia a escolha mais autêntica e também democrática dentro do nosso grupo de dois, naquele sábado. O lugar era diferente, estaríamos só nós duas, sem pressa, sem horário, com vontade de museu (o que é imprescindível numa viagem - encontrar alguém que queira fazer o que você também quer) e os mapas na mão. 

Não foi tão simples. Sábado caía uma neve incessante em Berlim, e andar pela cidade incluía andar sobre camadas altas de neve, gelo, mais neve que gelo, e passar muito frio. Nesse dia eu pus duas luvas, e também estava com três calças, cinco camisas/suéters/casacos, duas meias, capuz, e me recuperava de uma virose forte, bem forte. 

O caminho foi difícil. O museu não era simples de achar e ninguém nos arredores parecia apontar a direção certa - isso aconteceu comigo uma vez quando estava em Caicó, no Carnaval. O mapa mostrava um caminho curto, que, na neve, foi triplicado. E o tempo que levamos para chegar ao museu rendeu cansaço, dores nos pés, e as primeiras imagens de um lado da cidade que a gente jamais iria se não fosse o Bauhaus. 

Que não foi, pra gente, um grande museu. Se uma de nós fôssemos arquitetas ou designers, quem sabe, talvez tivesse sido inesquecível. Estaríamos como eles lá: com cadernos de papel canson desenhando formas abstratas e aparentemente indecifráveis, que resultavam todas em um complexo artístico, quase idêntico ao original, cheio de cores. Também olharíamos por dezenas de minutos para as projeções que as sombras daquele objeto faziam nas paredes. E iríamos desenhar as sombras. Também as cadeiras, as mesas, aquela cozinha cinza, hermética e esquisita. O Bauhaus foi um museu esquisito. Proibidíssimo de ser fotografado, frequentado por pessoas cuja inteligência artística e cuja capacidade visuo-espacial devem merecer escores altos nos testes psicológicos que conheço. Todos lá sabiam exatamente por que estavam ali, o que observar, o que desenhar, e quais comentários eram realmente apropriados - quase nenhum, porque as pessoas não conversam dentro dos museus, aqui. 

Decidimos almoçar em um restaurante típico, desconhecido por nós, que se dizia perto do museu. Era longe. Era bem longe. No frio de temperaturas negativas, tudo é bastante longe se não for dentro de um espaço com aquecedor. E logo depois que começamos a andar com frio e com fome, ainda confusas pelo que tínhamos feito dentro do museu (o que era que deveríamos ter pensado, exatamente?; eu me sentia bastante ignorante), vimos as mais bonitas imagens de uma viagem.

Berlim estava praticamente vazia: num fim de semana com tanta neve, a não obrigatoriedade de sair de casa faz com que 90% da população fique escondida perto de um aquecedor. Dentre as pouquíssimas pessoas que estavam pelo caminho, vimos três husky siberianos, oito cachorros de outras raças, e quase uma dezena de seres humanos fazendo exercícios físicos. O que foi tão ou mais confuso que os objetos do museu, mas, sim: vimos um tanto praticando jogging às duas da tarde, sob neve. 

Passamos pelo Parque Tiergarten que estava coberto de neve: todos os seus caminhos, todos seus espaços abertos, era tudo muito alvo e muito... simples de belo. As árvores não tinham folha alguma, e faziam o único contraste na paisagem cujo céu era cinza e o chão era branco. Berlim era um quadro quase vazio mas espetacular em beleza, e imenso, interminável. E a ausência de pessoas na rua vendo aquilo tudo só tornou tudo mais icônico, como se só nós tivéssemos descoberto aquelas fotografias, e até quiséssemos que mais gente as visse conosco, mas não havia quem chamar pra perto. 

A cidade estava silenciosa, branca e cinza, gelada demais, mas parecia nos abraçar ao longo do caminho, como um lugar que transmite emoções e pede mais do que fotos: deixa feito lembrança todos os movimentos vívidos desse caminho. 

Demorou um pouco para chegarmos ao destino, que, mesmo bom, não importava tanto mais: o caminho que tinha nos levado até ali não deixou desejo de mais nada. A gente ficou repleta. O caminho que Berlim nos deu de presente esse dia. Vou lembrar por muito tempo. 

domingo, 17 de janeiro de 2016

Por que vamos todos juntos

Em qualquer grande cidade do mundo, parece ser inevitável encontrar muitos brasileiros e ouvir muito português. Em Dublin, eu ouvia mais português do que inglês, nas ruas - até porque brasileiro fala muito mais do que qualquer outra nacionalidade, então isso também explica o cálculo.

Aqui em Berlim não é diferente. Na escola, nos intervalos das aulas, se ouve o português muito alto que a gente fala com a educação que não temos. No primeiro dia de aula, todos os brasileiros se reconhecem pelos traços e pelos olhos que parecem procurar empatia. Brasileiros têm disso (eu acho) (posso estar bem errada, mas acho). Procuramos empatia nos rostos dos outros, porque somos empáticos demais, olhamos nos olhos sem vergonha, e sorrimos com qualquer brecha.

E lá estávamos todos juntos: grupos de amigos brasileiros. Sempre pontilhados por um francês, um inglês, um suíço que seja, mas os brasileiros juntos e barulhentos. E quem fica no Brasil acha que isso é ruim, que isso é péssimo. Ir pro exterior estudar língua estrangeira e ficar andando de braço dado com tanto brasileiro. Mas parece anti-natural evitar isso. Não parece certo andar sozinho num lugar em que todas as pessoas já são solitárias em si mesmas.

A gente se aproxima porque é difícil estar tão longe de casa e ter de se acostumar com silêncio, com temperaturas negativas, com poucos sorrisos e pessoas antipáticas e racistas pelas ruas. Porque também não é fácil se acostumar à ausência do feijão e do arroz, da farofa, ou com uma televisão cujos canais parecem tão ruins e desinteressantes. E o silêncio o tempo todo e tantas vozes baixas. Nenhuma música horrorosa que passe pela rua, um carro com auto-falantes, nada que não seja indiferente à nossa existência - tudo o é.

Brasileiros andam juntos porque são incapazes de serem indiferentes uns aos outros. Até os que jamais seriam amigos dentro do Brasil, a patricinha que não vai com sua cara, a sulista que acha que o nordestino não fala o nome dela certo porque não chia, o menino dez anos mais novo, a mulher vinte anos mais velha, eles podem até tentar se evitar, vez em quando, serem mais indiferentes, mas nunca são. O brasileiro sempre lembra de perguntar se tá tudo bem, se tu precisa de algo. Sempre reconhece o outro infeliz e com vontade de voltar pra casa, e, à despeito de muitas diferenças, não quer deixar ninguém na mão. A gente anda na contra mão do mundo, e por isso andamos todos juntos nos outros países, falando português alto, incomodando as pessoas do metrô, alimentando mais preconceito em quem não gosta de latinos. É inevitável.

Se a gente não se une, perde toda a nossa força, e vamos que terminar iguais aos europeus que nos detestam (não são todos, mas há): tristes, solitários, indiferentes, sem vontade de estar junto de ninguém. Mas rir tanto e falar demais é mais da nossa natureza. Ter gente por perto também. Que sigamos assim - fica mais fácil de suportar todo o resto.

Memorial do Holocausto

Por baixo do memorial do holocausto, há um museu contando a história, os fatos, a vida das famílias, e mostrando fragmentos de diários e cartas de judeus perseguidos à época. Uma passada rápida em frente ao memorial, pela calçada de fora, o vento gelado no rosto, o dia cinza por cima e as lápides cinzas por baixo, você olha um pouco, fotografa um pouco, não sente assim tanta coisa e entra na fila. O frio incomoda e diz que é melhor descer pro museu. Lá embaixo tem aquecedor. 

Na fila, ainda do lado de fora, ainda ao ar livre naqueles três graus celsius, você olha mais a sobreposição de cinzas na paisagem: céu, árvores escuras sem folhas, lápides e chão. 

À entrada do museu, depois de passar seus pertences por detector de metais, guardar mochilas e casacos, a primeira sala mostra uma linha do tempo que conta o holocausto em história, geografia, números e nomes - mas o de Hitler só aparece na metade do caminho. As pessoas estão numa fila lendo a história sem pressa. A iluminação é baixa e as placas são escuras, com uma luz acima delas para que a gente possa ler.

A próxima sala expõe pedaços de cartas, cartões postais e diários de judeus perseguidos. Os trechos ficam projetados no chão, e nas paredes há os números de judeus mortos em cada país europeu: a Polônia é a campeã, seguida da Alemanha. 

Nos trechos das cartas, as despedidas e as frases de que "não vamos nos ver nunca mais". A despedida absoluta de um senhor que se matou logo depois de escrever o cartão postal. A mãe que diz aos filhos para fugirem para a casa do pai, e que diz que nunca mais irá vê-los, que os ama demais. E o relato das crianças que choravam alto no campo de concentração por estarem com fome - e o choro delas era silenciado por inúmeros tiros que os oficiais começavam a dar do lado de fora. 

Nesse vão, há bancos como as lápides de lá de fora: eles ficam bem de frente para as cartas mais entristecedoras. As pessoas lêem o trecho em inglês ou alemão, vêem a fotografia do papel manuscrito, e não falam absolutamente nada. Ninguém fala absolutamente nada lá embaixo. Ninguém tira fotos. Ninguém faz perguntas. O silêncio é pesado e a vontade de chorar segue às vezes.

A próxima sala conta a história de diversas famílias judias: a peregrinação que seus membros tiveram de se submeter à época do Holocausto, a quase totalidade de mortos, os raros sobreviventes, suas fotografias em preto e branco com os pais, avós, crianças. Achei que já estava ficando impossível de ler tudo - eram menos de vinte famílias, ali, mas o peso das informações e a culpa misturada com indignação que se sente tornam mais difícil continuar as leituras. Passei os olhos. Não olhei muito nos olhos deles, também. As imagens de pessoas que não imaginavam o que estaria por vir - como que iriam terminar um dia. E o silêncio continuava a pesar no museu. 

Na saída, depois de pegar de volta os casacos, a mochila, e subir em direção ao dia cinza e frio, você emerge quase no centro do memorial, de frente pra lápides mais altas, mais pesadas, mais perto de você. E você se sente mal de novo. Se lá embaixo, a tristeza incomodava, nessa saída ela sufoca, literalmente. As lápides estão muito acima da sua cabeça, o caminho é estreito, e nas tentativas de saída você sente tontura. Não é fácil achar o caminho numa primeira vez, e não é confortável estar ali. 

O dia continuou frio, cinza e úmido, e eu saí de lá com uma mistura de pesar e de culpa, como se fôssemos todos responsáveis por genocídios como esses, por torturas como essas, sem motivos para tal massacre - como se houvesse, na nossa história, motivos para massacres. 

quarta-feira, 13 de janeiro de 2016

Em Berlim

Fazia sol quando cheguei em Berlim. Naquela soma de pouco sentido do sol com o frio, o sol e o gelo no chão. O frio nem castigava. Mas o cansaço sim. O tênis errado também, e a solidão iminente em um mês que teria poucas horas de dias e muitas horas de noite. Mas eu sempre quis estar aqui. Sem saber por que tanto quis.

E é difícil estar sozinha uma primeira vez. Deliberadamente sozinha. Em corpo e na língua e na cidade grande demais. Eu vim pra cá pensando em Dublin. E aqui não tem nada de irlandês - mal tem cerveja irlandesa. A cidade é tão grande que foge, que não cabe no mapa que a gente vê.

Domingo peguei um ônibus daqui até ali. Medo de me perder. Endereço na mão. Inglês sofrido do motorista de ônibus. E vai. Com o frio e a chuva na cabeça, a falta de gente na rua. Janeiro parece por aqui cheio de ausências, de vazios, de pessoas que andam apressadas com as mãos nos bolsos sempre, olhando para baixo. Quando não cai o chuvisco gelado cai a neve. E a gente anda mais rápido olhando mais para baixo.

Do ônibus, se vê uma cidade moderna e limpa, e linda, sem ser exagerada nos traços de nada. Imponente. Algumas pessoas imponentes e muitos prédios imponentes. Do trem se vê uma alternância de mundo velho e mundo novo, de um passado agonizante e de um presente onde tudo parece certo e no seu lugar. Há momentos, aqui, em que absolutamente tudo parece certo e no seu devido lugar. E em outras paisagens, se vê ruína e tristeza, um ar underground cultivado nos filmes e nas fotos conceituais de looks de roupa.

Como qualquer brasileiro, fiz amigos brasileiros no primeiro dia de aula. E foram muitos. Também graças a eles sou capaz de me deslocar de metrô dentro duma cidade desse tamanho - o mapa das estações me dão saudade de estudar trigonometria, de tão impossível que se é entender um metrô.

A comida barata, o vento gelado, a cerveja a centavos, o dia curto, o velho e o novo, a ruína e o monumento brigando e se complementando na paisagem, tudo isso confunde e faz bem em mesmo tempo. Tudo isso me carrega pelos dias e deixa Berlim mais enigmática que compreensível em si mesma. Grande demais, cosmopolita demais, diferente demais. E ainda tem tempo. Eu vou me deixando levar enquanto fico todos os dias aqui. Quase um mês pela frente.