quarta-feira, 13 de janeiro de 2016

Em Berlim

Fazia sol quando cheguei em Berlim. Naquela soma de pouco sentido do sol com o frio, o sol e o gelo no chão. O frio nem castigava. Mas o cansaço sim. O tênis errado também, e a solidão iminente em um mês que teria poucas horas de dias e muitas horas de noite. Mas eu sempre quis estar aqui. Sem saber por que tanto quis.

E é difícil estar sozinha uma primeira vez. Deliberadamente sozinha. Em corpo e na língua e na cidade grande demais. Eu vim pra cá pensando em Dublin. E aqui não tem nada de irlandês - mal tem cerveja irlandesa. A cidade é tão grande que foge, que não cabe no mapa que a gente vê.

Domingo peguei um ônibus daqui até ali. Medo de me perder. Endereço na mão. Inglês sofrido do motorista de ônibus. E vai. Com o frio e a chuva na cabeça, a falta de gente na rua. Janeiro parece por aqui cheio de ausências, de vazios, de pessoas que andam apressadas com as mãos nos bolsos sempre, olhando para baixo. Quando não cai o chuvisco gelado cai a neve. E a gente anda mais rápido olhando mais para baixo.

Do ônibus, se vê uma cidade moderna e limpa, e linda, sem ser exagerada nos traços de nada. Imponente. Algumas pessoas imponentes e muitos prédios imponentes. Do trem se vê uma alternância de mundo velho e mundo novo, de um passado agonizante e de um presente onde tudo parece certo e no seu lugar. Há momentos, aqui, em que absolutamente tudo parece certo e no seu devido lugar. E em outras paisagens, se vê ruína e tristeza, um ar underground cultivado nos filmes e nas fotos conceituais de looks de roupa.

Como qualquer brasileiro, fiz amigos brasileiros no primeiro dia de aula. E foram muitos. Também graças a eles sou capaz de me deslocar de metrô dentro duma cidade desse tamanho - o mapa das estações me dão saudade de estudar trigonometria, de tão impossível que se é entender um metrô.

A comida barata, o vento gelado, a cerveja a centavos, o dia curto, o velho e o novo, a ruína e o monumento brigando e se complementando na paisagem, tudo isso confunde e faz bem em mesmo tempo. Tudo isso me carrega pelos dias e deixa Berlim mais enigmática que compreensível em si mesma. Grande demais, cosmopolita demais, diferente demais. E ainda tem tempo. Eu vou me deixando levar enquanto fico todos os dias aqui. Quase um mês pela frente.

Um comentário:

Júlio Cézar disse...

Por que você está aí?