domingo, 17 de janeiro de 2016

Memorial do Holocausto

Por baixo do memorial do holocausto, há um museu contando a história, os fatos, a vida das famílias, e mostrando fragmentos de diários e cartas de judeus perseguidos à época. Uma passada rápida em frente ao memorial, pela calçada de fora, o vento gelado no rosto, o dia cinza por cima e as lápides cinzas por baixo, você olha um pouco, fotografa um pouco, não sente assim tanta coisa e entra na fila. O frio incomoda e diz que é melhor descer pro museu. Lá embaixo tem aquecedor. 

Na fila, ainda do lado de fora, ainda ao ar livre naqueles três graus celsius, você olha mais a sobreposição de cinzas na paisagem: céu, árvores escuras sem folhas, lápides e chão. 

À entrada do museu, depois de passar seus pertences por detector de metais, guardar mochilas e casacos, a primeira sala mostra uma linha do tempo que conta o holocausto em história, geografia, números e nomes - mas o de Hitler só aparece na metade do caminho. As pessoas estão numa fila lendo a história sem pressa. A iluminação é baixa e as placas são escuras, com uma luz acima delas para que a gente possa ler.

A próxima sala expõe pedaços de cartas, cartões postais e diários de judeus perseguidos. Os trechos ficam projetados no chão, e nas paredes há os números de judeus mortos em cada país europeu: a Polônia é a campeã, seguida da Alemanha. 

Nos trechos das cartas, as despedidas e as frases de que "não vamos nos ver nunca mais". A despedida absoluta de um senhor que se matou logo depois de escrever o cartão postal. A mãe que diz aos filhos para fugirem para a casa do pai, e que diz que nunca mais irá vê-los, que os ama demais. E o relato das crianças que choravam alto no campo de concentração por estarem com fome - e o choro delas era silenciado por inúmeros tiros que os oficiais começavam a dar do lado de fora. 

Nesse vão, há bancos como as lápides de lá de fora: eles ficam bem de frente para as cartas mais entristecedoras. As pessoas lêem o trecho em inglês ou alemão, vêem a fotografia do papel manuscrito, e não falam absolutamente nada. Ninguém fala absolutamente nada lá embaixo. Ninguém tira fotos. Ninguém faz perguntas. O silêncio é pesado e a vontade de chorar segue às vezes.

A próxima sala conta a história de diversas famílias judias: a peregrinação que seus membros tiveram de se submeter à época do Holocausto, a quase totalidade de mortos, os raros sobreviventes, suas fotografias em preto e branco com os pais, avós, crianças. Achei que já estava ficando impossível de ler tudo - eram menos de vinte famílias, ali, mas o peso das informações e a culpa misturada com indignação que se sente tornam mais difícil continuar as leituras. Passei os olhos. Não olhei muito nos olhos deles, também. As imagens de pessoas que não imaginavam o que estaria por vir - como que iriam terminar um dia. E o silêncio continuava a pesar no museu. 

Na saída, depois de pegar de volta os casacos, a mochila, e subir em direção ao dia cinza e frio, você emerge quase no centro do memorial, de frente pra lápides mais altas, mais pesadas, mais perto de você. E você se sente mal de novo. Se lá embaixo, a tristeza incomodava, nessa saída ela sufoca, literalmente. As lápides estão muito acima da sua cabeça, o caminho é estreito, e nas tentativas de saída você sente tontura. Não é fácil achar o caminho numa primeira vez, e não é confortável estar ali. 

O dia continuou frio, cinza e úmido, e eu saí de lá com uma mistura de pesar e de culpa, como se fôssemos todos responsáveis por genocídios como esses, por torturas como essas, sem motivos para tal massacre - como se houvesse, na nossa história, motivos para massacres. 

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