domingo, 17 de janeiro de 2016

Por que vamos todos juntos

Em qualquer grande cidade do mundo, parece ser inevitável encontrar muitos brasileiros e ouvir muito português. Em Dublin, eu ouvia mais português do que inglês, nas ruas - até porque brasileiro fala muito mais do que qualquer outra nacionalidade, então isso também explica o cálculo.

Aqui em Berlim não é diferente. Na escola, nos intervalos das aulas, se ouve o português muito alto que a gente fala com a educação que não temos. No primeiro dia de aula, todos os brasileiros se reconhecem pelos traços e pelos olhos que parecem procurar empatia. Brasileiros têm disso (eu acho) (posso estar bem errada, mas acho). Procuramos empatia nos rostos dos outros, porque somos empáticos demais, olhamos nos olhos sem vergonha, e sorrimos com qualquer brecha.

E lá estávamos todos juntos: grupos de amigos brasileiros. Sempre pontilhados por um francês, um inglês, um suíço que seja, mas os brasileiros juntos e barulhentos. E quem fica no Brasil acha que isso é ruim, que isso é péssimo. Ir pro exterior estudar língua estrangeira e ficar andando de braço dado com tanto brasileiro. Mas parece anti-natural evitar isso. Não parece certo andar sozinho num lugar em que todas as pessoas já são solitárias em si mesmas.

A gente se aproxima porque é difícil estar tão longe de casa e ter de se acostumar com silêncio, com temperaturas negativas, com poucos sorrisos e pessoas antipáticas e racistas pelas ruas. Porque também não é fácil se acostumar à ausência do feijão e do arroz, da farofa, ou com uma televisão cujos canais parecem tão ruins e desinteressantes. E o silêncio o tempo todo e tantas vozes baixas. Nenhuma música horrorosa que passe pela rua, um carro com auto-falantes, nada que não seja indiferente à nossa existência - tudo o é.

Brasileiros andam juntos porque são incapazes de serem indiferentes uns aos outros. Até os que jamais seriam amigos dentro do Brasil, a patricinha que não vai com sua cara, a sulista que acha que o nordestino não fala o nome dela certo porque não chia, o menino dez anos mais novo, a mulher vinte anos mais velha, eles podem até tentar se evitar, vez em quando, serem mais indiferentes, mas nunca são. O brasileiro sempre lembra de perguntar se tá tudo bem, se tu precisa de algo. Sempre reconhece o outro infeliz e com vontade de voltar pra casa, e, à despeito de muitas diferenças, não quer deixar ninguém na mão. A gente anda na contra mão do mundo, e por isso andamos todos juntos nos outros países, falando português alto, incomodando as pessoas do metrô, alimentando mais preconceito em quem não gosta de latinos. É inevitável.

Se a gente não se une, perde toda a nossa força, e vamos que terminar iguais aos europeus que nos detestam (não são todos, mas há): tristes, solitários, indiferentes, sem vontade de estar junto de ninguém. Mas rir tanto e falar demais é mais da nossa natureza. Ter gente por perto também. Que sigamos assim - fica mais fácil de suportar todo o resto.

Um comentário:

Júlio Cézar disse...

Nunca li tanto esteriótipo num post so.