quarta-feira, 3 de fevereiro de 2016

Duas Berlins

Há algo que vai ficando à medida que seus dias se passam em Berlim: uma sequência cotidiana de imagens completamente opostas, justapostas, contrárias demais. Determinadas partes da cidade convocam memórias que você, claramente, não tem do lugar: um passado meio sujo, meio duro, meio frio, que não fica esquecido. Não falo de nazismo nem de judeus, estritamente. Mas uma espécie de cidade velha e abandonada que salta aos olhos, ao mesmo tempo em que parece ter sido deixada daquele jeito de propósito, estática, parada no tempo.

Cruzar a cidade do centro ao bairro de Kreuzberg pra tomar uma cerveja (ou voltar no fim da tarde de Kreuzberg para o centro) te apresenta uma sequência alternada de imagens de uma cidade moderna e desenvolvida com visões de um lugar sem glamour, sem muito presente, com muito passado e dureza. Algo que dói um pouco, e que te faz sentir um pouco mais do frio.

Ao sair da estação de metrô que vem de Kreuzberg, é preciso ir para a rua e andar por uma espécie de viaduto/passarela até uma estação de trem de superfície, de S-Bahn, que fica numa paisagem desolada. A escuridão e as linhas paralelas dos trens, os poucos trens que passam, silenciosamente, a visão de boates que, de cima da passarela, mais parecem barracos ou containers (algo duramente hipster e alternativo, mas também desolador, visto no fim da tarde ou à noite, antes que as festas comecem). E a mistura absoluta de pessoas, raças, roupas, odores, que apenas somam a uma paisagem escura, com prédios abandonados ao fundo e boates travestidas de barracos à frente. O frio que faz, e o caldeirão de sujeitos bêbados, sóbrios, em busca de baladas e drogas, outros cansados do trabalho, outros cansados da própria vida. Poucas parecem fazer turismo ou passeio nesse corte da cidade. São muitos os jovens que sobem e descem as escadarias que conectam essa estação ao metrô; enquanto o escuro e o frio permanecem inalterados por qualquer dia de janeiro em que se passe ali. 

Em determinados momentos, parece que se está dentro de um filme europeu, alemão, francês, sueco, muito cult e muito sério, muito ininteligível, também, cujos personagens não fazem parte de nenhuma história de vida verdadeiramente feliz. Algumas partes da cidade de Berlim são assim: pesadas, densas, escuras em todos os sentidos, cenário de filme que não começa nem termina bem. 

Mas um passeio sob trilhos de superfície ou uma caminhada no Mitte sempre te dão a impressão de estar em uma cidade onde tudo funciona, tudo está bem certo no lugar, os transportes, as árvores, os cachorros silenciosos e obedientes, e também as pessoas que parecem viver bem aqui - sem necessariamente parecer que vivem felizes. 

E todos os dias uma alternância de paisagens convoca imagens de um passado que você só sabe pelos livros e pelos filmes (ininteligíveis), mas que sente agora estar tão perto, e imagens de um país que a televisão (aberta e quase sempre meio burra) transmite por aí: o lugar onde as coisas deram certo e continuam bem, estáveis, sem problemas, sem emoção nenhuma também. 

O filme real já parece estar sendo mostrado ao vivo aos nossos olhos. Mas ele é muito mais real lá: onde Berlim é desolada e abandonada. Nos outros cenários de roliúdi nem tudo convence. Mas permanece, aparece, e brilha quando o sol se descobre no meio de tanto frio. 

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