segunda-feira, 29 de fevereiro de 2016

Não-casa

Dentro de um quarto branco com móveis cor de pátina clara e sem graça. Duas camas de solteiro coladas uma na outra, um birô, duas cadeiras frágeis, um abajur entre dois para funcionar, criados-mudo, aquecedor e uma janela que poderia abrir apenas 15º para cima dependendo do quanto você girasse a tranca - outro modus operandi permitia abrir a janela por completo para que você congelasse os ossos. Era só querer.

Estando na rua, eu nunca poderia dizer que iria voltar para "casa". Porque, quando voltasse, além de silêncio profundo, não haveria geladeira nem fogão nem nenhum móvel que eu tivesse escolhido com meu mau gosto. Mas eu por vezes dizia, se não prestasse atenção. E não que aquele lugar impessoal e tão feio fosse algo de casa para quem estivesse ali. Impossível ser. Mas sempre que eu chegava ali de novo, eu voltava para um vazio familiar que talvez fosse eu mesma. Que talvez seja tudo o que eu sou.

E não foi ruim por dia nenhum. Nem quando fiquei doente, nem quando fiquei doente da segunda vez, nem quando acabou a comida perecível que era comprada para somente um dia e só me restavam waffles do supermercado e geléia orgânica.

A televisão ficava ligada em canais alemães nunca tão bons nem tão audíveis o suficiente que me ajudassem a aprender. E eu não aprendia mesmo. Estive por ali para aprender alemão, mas gastei quase o tempo inteira aprendendo a estar comigo mesma - e gostando disso. Gostei mais disso do que de aprender alemão, que por algumas vezes foi sutilmente desesperador.

E enquanto eu tinha poucos livros meus, poucas roupas que diziam algo de mim, porque quase tudo era lã e preto e muito quente (e minhas roupas preferidas não são quentes, é claro, vide o lugar onde vivo), e os dias eram quase todos tão brancos e tão belos de se ver pela janela, eu poderia ficar ali, ficando comigo mesma, aprendendo sobre mim e não sobre alemão, lendo a mim mesma e não valter hugo mãe em minúsculas, e o tempo passaria rápido como passou.

Vou sempre conseguir lembrar o céu branco de neve prestes a cair, as árvores sem folhas, a ausência de sol, tudo isso entrando pela janela que eu nunca abria os 15º para cima. Junto com a comida sem gosto e comprada dia a dia, diante a impossibilidade de não poder cozinhar nada - parece tudo proposital para que você não se sinta em casa. Mas por eu ter sido minha única companhia no silêncio e no burburinho do sitcom em alemão, eu estava em casa todos os dias, sem que isso significasse exatamente estar feliz ou não. Significando que, finalmente, eu pude me fazer companhia por dias e noites inteiras, e gostar mais de mim depois de tudo isso. Esse vazio familiar.

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