segunda-feira, 14 de março de 2016

Auto carta sobre luas

Tu viu aí a lua que tá se formando pra ficar esses dias. Como ela já tá. Feito C. Feito U. Um U bem gordo tava hoje. Imenso. Vai ser uma lua cheia linda por esses dias, tu vai ver, tu já viu como ela está agora? 

Tocou uma música no rádio e eu me lembrei de você. Na verdade eu já estava pensando em você, como de vez em quando, como costume meu, e a música começou. As guitarras altas, e a Rita Lee. Uma música sobre mulheres e sobre grandes mulheres. Sobre todas as mulheres. Estamos por aí, querendo um monte de coisa. Eu depois da música fiquei olhando pra lua formando-se em U, que daqui a pouco vai ser um O todo cheio. Quase que mudava o caminho que o carro tinha de fazer pra poder dirigir mais de frente pra ela. Quase quis apanhar a lua mais de perto, ficar mais de perto, como num descampado e céu aberto. Enquanto isso pensava sobre você. 

A gente poderia tentar esses dias de novo. O céu sobre o descampado. Ou a praia em dia de lua. Um lugar longe daqui mas não tão longe. Porque, sabe o que eu acho, que esse seu negócio com viagem é só um querer fugir e ficar de fora. O que dói aqui dói menos se tá longe. Até porque eu também fico aqui. E você foge mais. 

E depois que a música tocou e os solos de guitarra silenciaram e eu ainda tinha a lua na minha frente, só me perguntava se você estava vendo isso, se você andava vendo essas coisas. Se ouvia músicas assim, se ouvia letras ou só melodias e nada. Você só ouve música ruim que toca na rádio. Uma música que te faça não pensar em nada, não pensar na vida, não pensar em você. Acho só que você tem que pensar mais em você - olhando pra lua isso fica melhor, por isso digo. Você tinha que ter visto a lua hoje. 

E quando a gente se encontrar, a gente podia falar verdadeiramente de você, poderia falar verdades, poderia falar muito pouco, até, mas a gente teria por obrigação fazer um pouco mais do dia: como ficar de frente pra lua e ouvir uma música que preste. Quanto tempo faz que você não ouve uma música que preste. Você não tem ouvido nada, nem da música, nem de livro, que eu sei. Eu sei que ler, hoje, você faz muito pouco. E que fica escrevendo pra dizer nada, pra fingir catarse. Imagino o trabalho que deve ser ser o seu terapeuta. Coitado. Mas aposto que ele te manda fazer o mesmo: ver a lua grande vez em quando. Ouvir a música certa mais alto. Sentir menos dormência só em saber que tanta coisa existe fora do seu vazio. 

Tu só precisa ver mais as coisas, sabe. E lembrar que tudo ainda existe. Tu já esqueceu disso faz tempo, anos. Já faz tanto tempo. E você aí, de novo sem me ouvir. 

A gente só podia se encontrar. Eu te espero faz tempo. Faz tempo.