quarta-feira, 11 de maio de 2016

Ser arrependida

Pois eu vivo arrependida. O tempo todo, todo dia, sempre sempre. Agora mesmo. Tô arrependida porque não fui dormir cedo, porque ainda não fui dormir, porque estou no computador pensando em tudo que consigo fazer agora, o que não consigo mas deveria, e em tudo que quero fazer ainda. Como se fosse possível eu trabalhar, estudar e escrever numa velocidade e qualidade invejáveis em um espaço de três horas, por exemplo. Só que nessas três horas entraria a alta madrugada e eu teria que dormir bem pouco, acordar cedo pra trabalhar, e teria um dia ruim - mas eu teria feito todas essas coisas agora, e aí me arrependeria por dormir pouco, mas não por ter feito tudo isso agora nessas três horas, mas me arrependeria em seguida por não ter feito tudo tão bem.

Eu vivo me arrependendo por não fazer tudo tão bem. Veja. Fui à nutricionista. Continuo indo. Começo a fazer dieta, etcétera, coisa e tal, mas, é claro, a mulher quer que eu não coma pão nunca mais na minha vida e eu sei que não vou conseguir isso nunca e também sei que não deveria cortar nada radicalmente das minhas escolhas porque acho isso radical e tento não ser uma pessoa radical, que consegue viver com moderação. Não consigo. Mas eu tento. Aí que toda vez que como algo fora da dieta na hora acho muito certo, é claro, mas me arrependo cinco minutos depois. E em todas as horas subsequentes. Até que complete quarenta e oito horas de dieta absoluta e eu não fique mais mal. Só que quando completam quarenta e oito horas de inanição do glúten e do leite eu já sento pra comer o que não devo (?), aí sofro de novo.

Também fico arrependida porque durmo depois do almoço. Porque eu deveria trabalhar depois do almoço. Ou estudar. Ou tocar violão. Olha, porra, de novo. Hoje não toquei violão. "Pelo menos quinze minutos todo dia pelo menos quinze minutos todo dia pelo menos quinze minutos todo dia". Não consegui os quinze minutos. Devo ter perdido no Instagram - a cada vez que vou ao banheiro - fazer qualquer um dos números - levo o celular e fico quinze minutos no Instagram. Um xixi que dura quinze minutos, veja aí. Poderia levar o violão, ou o livro de alemão.

AH, é. O alemão. "Pelo menos quinze minutos todo dia" e nessa de não encontrar os quinze minutos que estão sempre na minha cara já se passaram os meses. Me arrependo sempre, quando lembro. Lembro todo dia.

Há poucos minutos me arrependi, também, de ter lido pouco hoje. Foram só algumas páginas, esperando o almoço, esperando o carro lavando, esperando quase nada porque hoje esperei pouco, fiz tudo andando. Aí li pouco. Me arrependo todos os dias por ler pouco, pouco demais, menos do que deveria e gostaria.

E agora, arrependida de estar indo dormir tarde novo, que todo dia eu digo que vou dormir cedo e todo dia durmo tarde e todo dia me arrependo assim, vou deitar com um livro e jurar que amanhã vou fazer mais e me arrepender menos. Pelo menos quinze minutos, todo dia, vou tentar me arrepender menos. Quinze minutos.

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