quarta-feira, 22 de junho de 2016

Adeus com lembrança

Depois que a gente começa a fazer um curso de licenciatura a gente descobre que foi parar ali por causa de algum professor do colégio. Quase sempre. Depois que entra pra fazer Letras Português se dá conta que quem te fez decidir por aquilo foi um professor de português ou de literatura.

Eu estava no meu quarto ano de Psicologia ainda insistindo naquele negócio que não ia dar em nada (só num diploma que eu não ia usar nunca), e tive o insight quase-tardio de que eu deveria fazer Letras. Meu negócio de escrever não era assim tão sério (nunca será), e também já não era mais uma opção voltar atrás e tentar ser jornalista. Eu deveria estar no curso de Letras há muito tempo; tive essa certeza numa tarde. E não precisava dizer a mim mesma o que eu iria fazer com essa nova graduação: não sei se gostaria de ser professora, mas tinha a absoluta certeza de que meu lugar era nesse tipo de sala de aula, da licenciatura.

E foi nesse ano penúltimo de Psicologia, eu passando na calçada do CCHLA e indo pro SEPA atender uma criança (ainda bem). Encontro: Guilherme!, eu gritei e ele sorriu. Perguntei o que ele estava fazendo ali, já que os corredores onde eu o encontrava eram antes os do colégio: vou começar o doutorado. E você? Tá gostando do curso? Não, tô não. Mas decidi o que eu quero: vou fazer Letras. Ele sorriu satisfeito. Perguntou se eu estava feliz com a decisão. Eu disse: sim, muito, só meu pai que ficou louco com isso. Ele: ah, o meu também ficou!

E quando eu estava no segundo semestre do curso me dei conta que tinha ido parar ali muito por conta dele. Que se eu gostava de Português antes, passei a gostar ainda mais depois de dois anos com esse professor - os dois últimos do ensino médio, na rabeira do vestibular, por que naquele dia em que considerei ser professora de português não levei logo a sério? Decidi por outra coisa, mas voltei atrás em tempo (sempre é). E meses depois de eu ter me dado conta do quanto minha vida mudou e se definiu por causa dele, soube que ele estava bem doente. Soubemos, os ex alunos. Chorei de raiva aquele dia, sabendo que aquilo não podia ser certo, mas tive certeza que tudo daria certo depois, também.

Enquanto também tive certeza de que qualquer dia eu ia me encontrar com ele para dizer que já era professora, que a culpa era dele, ainda bem, e que enquanto eu estudava e reestudava a gramática fazia do melhor jeito possível, que era pra um dia conseguir dar uma aula tão boa quanto as que eu tive. Sei que não vou conseguir, mas dizer isso valeria o esforço e a decisão que tomei a tempo de ser feliz.

Mas não houve tempo de dizer. Não houve tempo de deixar os livros que escrevi, já separados pra entregar na semana passada. Também não vai ser mais possível tirar uma dúvida de português quando surgisse de novo. Ele teve de se despedir e descansar, num finalmente, num eterno, e depois da raiva que senti de novo, quando soube, me encontrei diante de um buraco, de uma gestalt que não fecha, onde eu não posso dizer nem mostrar, à quem é de direito, o motivo de eu ser profissionalmente feliz. Já sou, antes mesmo do diploma. Mas sempre vai faltar um pedaço pra eu sentir a felicidade que achei que poderia dividir com ele.

Não tá sendo fácil, como também não deve ser fácil alguém de fora entender esse peso e essa medida. Mas não podia deixar que essas palavras passassem, não ficassem. Por isso um texto a quem também me ajudou a escrever mais, e melhor, com a paciência que nunca tive, em uma tentativa desengonçada de dar adeus.

segunda-feira, 20 de junho de 2016

É só cabeça

“É só cabeça”, ele disse. “Você vai conseguir. É só cabeça. Vamos tentar de novo.” 

Descobri tarde e em cima da hora que tenho a cabeça fraca. Pouca e fraca, cabeça pouca e muito fraca. Bati uma, duas, três, mais de trinta vezes na madeira. Bati muitas. “Você tá fazendo tudo certo; só falta acreditar que vai conseguir.” Então falta tudo, pensei. “Pensa que vai atravessar a madeira, e não que vai só bater a voltar.” 

E a cabeça fraca avisa pra língua já pronta em dizer que claro, vou atravessar, vai dar certo, vai sair, é só a cabeça, e ponho a cabeça no lugar e avanço a mão. Mas nunca.

E a cabeça vai ou sempre foi fraca, e mesmo não adianta o corpo ficar mais forte, a mão mais dura, a porrada formar o calo e eu aguentar dias de dor sem pomada nem gelo. Com a cabeça fraca a gente não se dá pra usar o corpo nem a força nem quebrar madeiras, nem quebrar as verdades que inventei sobre tudo que não consigo (ainda). 

Imagina se acredito que vou atravessar alguma coisa por aqui, alguma coisa só com minha vontade, eu comigo mesma. Se vou tão em frente assim. Imagina se não tenho medo de bater com a cara na porta (de madeira) (de novo). Já ando tão acostumada, que bato assim mesmo: vou e volto, volto, machuco, sofro, nunca atravesso. Nunca passo da linha certa. “É só a cabeça”. “Você precisa acreditar”. E não consigo. Se sempre foi difícil acreditar em qualquer tudo que eu fizesse, imagina agora, que eu tenho que acreditar que tenho que acreditar. 

Acho que anda mais fácil arrebentar a madeira com a própria cabeça. Vou tentar amanhã, que pode ser que eu atravesse, dessa vez.