segunda-feira, 20 de junho de 2016

É só cabeça

“É só cabeça”, ele disse. “Você vai conseguir. É só cabeça. Vamos tentar de novo.” 

Descobri tarde e em cima da hora que tenho a cabeça fraca. Pouca e fraca, cabeça pouca e muito fraca. Bati uma, duas, três, mais de trinta vezes na madeira. Bati muitas. “Você tá fazendo tudo certo; só falta acreditar que vai conseguir.” Então falta tudo, pensei. “Pensa que vai atravessar a madeira, e não que vai só bater a voltar.” 

E a cabeça fraca avisa pra língua já pronta em dizer que claro, vou atravessar, vai dar certo, vai sair, é só a cabeça, e ponho a cabeça no lugar e avanço a mão. Mas nunca.

E a cabeça vai ou sempre foi fraca, e mesmo não adianta o corpo ficar mais forte, a mão mais dura, a porrada formar o calo e eu aguentar dias de dor sem pomada nem gelo. Com a cabeça fraca a gente não se dá pra usar o corpo nem a força nem quebrar madeiras, nem quebrar as verdades que inventei sobre tudo que não consigo (ainda). 

Imagina se acredito que vou atravessar alguma coisa por aqui, alguma coisa só com minha vontade, eu comigo mesma. Se vou tão em frente assim. Imagina se não tenho medo de bater com a cara na porta (de madeira) (de novo). Já ando tão acostumada, que bato assim mesmo: vou e volto, volto, machuco, sofro, nunca atravesso. Nunca passo da linha certa. “É só a cabeça”. “Você precisa acreditar”. E não consigo. Se sempre foi difícil acreditar em qualquer tudo que eu fizesse, imagina agora, que eu tenho que acreditar que tenho que acreditar. 

Acho que anda mais fácil arrebentar a madeira com a própria cabeça. Vou tentar amanhã, que pode ser que eu atravesse, dessa vez.

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