terça-feira, 23 de agosto de 2016

Em direção à bolha

Lembro que quando minha vó morreu, uma das coisas que mais me arrependi e lamentei foi de ter estado na presença dela com pressa, até me querendo ficar, mas tendo de ir embora pra aula ou pro estágio. E eu nem gostava da aula e do estágio que eu frequentava na época. Também lamentei que muitas vezes eu estava cansada e dormia na cama dela, ao invés de conversarmos mais antes ou depois do almoço.

Continuo com pressa, com mais trabalho e mais aula - sendo que agora eu gosto de ambos, e correndo e chegando atrasada. Também tenho muito sono, porque eu gosto de dormir em horas infundadas como seis da noite e onze da manhã, e a vida normal não permite muito isso. Mas parei de correr quando estou com os outros, pelo menos acho que sim, tento que sim, vou desse jeito. Passei inclusive a comemorar meu aniversário, a data mais desconfortável do meu calendário, porque sei que poder estar com pessoas que gostamos é a única justificativa para estar vivo.

Mas hoje também interajo cada vez menos, ou cada vez com mais dificuldade e desconforto, e mais distante do que eu tinha por ideal (e por objetivo, depois que ela se foi e tomei tais resoluções). Desisti de disputar com o celular dos outros e preferi ficar em casa. Todas as vezes. Interagir socialmente já é um pouco difícil pra mim, tenho de lidar com uma aceitação própria que ainda construo, e com tentativas muitas vezes frustradas de ser agradável com quem está ali; e isso ficou impossível com pessoas que são acopladas aos celulares. Eu entendo e nem condeno. Mas também prefiro ficar no celular dentro de casa, de pijamas e sem maquiagem, do jeito que prefiro existir, inclusive. Deixei de aceitar convite.

O problema foi que também ficou um tanto mais difícil estar com os outros em vias virtuais. As pessoas que moram longe ou as que moram perto mas que têm pouco tempo livre - são muitas. Não falta assunto mas falta tempo, e, sintomaticamente, falta interesse. Nada se avança muito, agora; a conversa é entrecortada e faz tempo que não leio uma pergunta sobre como se está, se vai tudo bem. Nem vai. Mas não dá tempo de dizer nem de se ver pra dizer. E começar a falar espontânea e desesperadamente incomoda. Incomoda tanto quanto esse vitimismo meu de agora, mormente confundido com carência, necessidade de chamar a atenção, e lacunas psicossociais da primeira e segunda infâncias.

Meu aniversário vai vir e vou comemorar mesmo assim. Sem estar tudo bem, estando tudo bem, porque essa pergunta não existe mais, e também com celulares, 3g, 4g, com muita saudade da minha avó e em casa, claro. Que tudo me livre de sair daqui e existir lá fora.