terça-feira, 15 de novembro de 2016

Portanto ansiedade

Eu tava no mestrado e sonhava mês sim mês não que meu orientador morria. Que meu orientador fugia. Que tudo dava errado. O meu orientador e minha co-orientadora viajaram para fora, em pós-doc. Fiquei sozinha. Deu tudo errado. O delineamento estatístico pretendido não dava pra fazer porque a amostra tinha variáveis inesperadas. Na coleta, eu rodei o teste errado sem perceber que ele estava errado. Refiz, perdi dados, coletei outros. Eu fiz duas qualificações com praticamente tudo dando errado e na segunda eu estava sozinha; os dois orientadores fora de Natal. Eu subi no palco e mostrei que tava tudo errado e disse que não sabia o que fazer. Enquanto isso eu continuava sonhando que eles morriam, fugiam, que tudo daria errado até o dia da defesa. E muita coisa deu, realmente.

Já sonhei que o orientador pretendido pro doutorado morria. Era horrível, era pesado, eu ficava mal com a morte e depois ficava mal pensando que não conseguiria terminar meu trabalho e acordava mal com a culpa de ter pensado um absurdo desse enquanto sonhava já que uma pessoa tinha morrido e eu estava sendo egoísta como sempre sou e como sempre fui sem nunca admitir. Aí eu sonhei outro dia que na entrevista, que é depois de amanhã, que eu não consigo parar pra pensar racionalmente em mais nada do que nessa entrevista, que eram três os membros da comissão: dois que de fato são, na vida real, um terceiro que não é da comissão real, mas um cara que faz kung fu comigo. Aí somente o cara do kung fu me fazia perguntas, enquanto um dos membros da comissão estava deitando em um divã mas não com a barriga pra cima e de costas pra mim, mas meio de lado, com a barriga meio pra baixo, numa pose meio diva, com a cabeça virada pra mim, apoiada no queixo. Ele não falava nada e eu tentava explicar meu projeto. O cara do kung fu que no meu sonho era membro da banca pergunta se eu toparia ser orientada pelo cara que estava no divã, caso meu orientador pretendido ficasse cheio demais. Meu orientador pretendido está cheio demais.

E aí enquanto você tenta se preparar para uma entrevista assim importante você tem que estudar mas não estuda porque não consegue parar de pensar que tem uma entrevista a fazer, que não imagina como pode ser, se um dos avaliadores estará no divã  ou se o sonho de o orientador morrendo era um símbolo avisando que ele não será seu orientador. Portanto fracasso. Você precisa estudar mas não consegue ler três linhas sem que sua cabeça pense em vinte e três diferentes tópicos em um intervalo de minuto e meio. Você tenta. Portanto fracasso. Você precisa correr em círculos e gritar mas mora em apartamento e aqui não existe um quintal. Portanto fracasso. Você come tentando se controlar e toca violão imaginando que está se acalmando e se acalma mas depois passa a suar novamente e a tentar estudar sem conseguir, e o dia foi todo assim, em vão, tentando estudar sem conseguir, tentando ler sem conseguir, tentando frear uma cabeça acelerada que disparou desde de manhã cedo e não pretende voltar tão logo.

E pensar que o dia foi em vão traz mais ansiedade visto que: te diz que você perdeu tempo, não estudou, não se preparou, não consegue sentir sono nem parar de suar, que deveria ter se esforçado mais, que deveria ser uma pessoa mais organizada e disciplinada que não foi que nunca foi, que no dia da entrevista não poderá subir ao palco dizendo que deu tudo errado, por favor me ajudem, estou aqui pra isso, porque aí é portanto-fracasso outra vez.

Torcendo pra que quinta não seja portanto-fracasso. Que dê certo, que eu não tenha dor de barriga e que a sudorese fique controlada pelo menos durante a entrevista. Tomara que o cara não esteja no divã, meu Deus, tomara. Tomara que o orientador não morra, nem ninguém, que nenhuma tragédia aconteça, que eu durma, que eu estude, que eu passe.

Era segredo mas aí não sei.

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