terça-feira, 27 de dezembro de 2016

Dando cria

Eu fui crescendo e antes de ficar velha fui envelhecendo muito rápido e criando medos, muitos, pequenos que viravam grandes, grandes desde que nascendo comigo. Fui tendo medo de brigar, medo de brigar e cair, em todos os sentidos, fui ficando com tanto medo de me arrebentar que mal subi em árvores, não aprendi a andar de bicicleta, olhei cotidianamente para as cicatrizes nos joelhos de modo que elas me lembrassem que eu deveria, sim, ter medo, continuar tendo.

Do medo de brigar passei ao medo de desagradar um ou outro e todo mundo e não digo não a nada, não digo não a ninguém, faço tudo que me peço aceito tudo que me dão. Sou um monstro pra mim mesma todo dia, vou me destruindo com esse medo de não ser bom pro outro e nunca sou boa pra mim, e quando decido ser boa pra mim e desagradar o outro eu o faço, fico satisfeita, no outro dia sofro, me arrependo, quero o telefone pra pedir desculpas e quero também que o tempo volte.

Fui pra terapia pra ver se consigo ser melhor pra mim. Ainda não consigo. Fui fazer arte marcial pra conseguir brigar quando preciso. Não consigo. Na hora de ir pro tatame e lutar eu levanto as luvas pro rosto (já coberto por um capacete com grades) e balanço a cabeça que não vou, não vou mesmo, não vou de jeito nenhum, e com os olhos enchendo de lágrimas eu entro com alguém disposto a fingir que vai me ajudar a fingir que sei lutar. Não sei.

Também deveria aprender a cair e tenho de ficar dando rolamentos mas travo na primeira cambalhota. Eu não dou mais cambalhota. Não vou pra frente nem pra trás nem desço de verdade. Eu tenho medo de dar uma cambalhota e não fazer bem feito e machucar o pescoço a coluna e ficar tetraplégica. Eu tenho medo de me machucar. Tenho medo de errar, de não fazer bem feito, de me prejudicar e prejudicar alguém ali do meu lado.

Eu tenho medo de não acertar.

Erro todo dia muito mais por causa desse medo.

Tenho tentado combater e sanar um medo ou outro, aos poucos, caindo melhor de costas e derrubando alguém por cima do tatame. Dizendo não pelo menos a minha mãe (uma pessoa que posso desagradar sempre pois mesmo assim vai continuar me amando, diferente das outras pessoas que irão me odiar por completo se eu desagradá-las um dia, sendo que eu sempre me sinto mal quando a desagrado, e isso é quase todo dia, porque, de novo, tenho medo de errar e fico errando sempre com ela), ouvindo o que eu quero mais - mas como eu não gosto nem consigo gritar, também nos dois sentidos, literal e figurado, aí eu mal me ouço.

Só não enfrento nem combato nem mesmo sei por onde vou quando penso no medo de ser mais sozinha. Se isso se enfrenta, se se dá pra ser maior que ele. Os outros medos a gente desvia enfrenta muda o foco decide voltar pra ele depois e pensa com calma. A solidão não se desvia nem esquece, nem desaprende depois que ela chega e se acomoda. Ela não se esquece nem o esquece, fica mais tempo e por um sempre; te lembra sempre dela ali, feito cabelo amarrado com muita força, dor no ciso e cólica que proíbe o sono. Não vai. Fica mantendo o ritmo, mantendo a lembrança, e ninguém melhora andando por aí com ela dentro de si.

domingo, 11 de dezembro de 2016

Texto ruim dispensável

Alguns tipos de gentes é preciso ter cuidado ou evitá-las. Algumas é melhor que nunca seja preciso interagir socialmente com elas - afetivamente, jamais. Como só eu leio esse blog, vou fazer essa lista pra que eu consiga lembrar sempre dos tipos, e pra que possa editar o post, no futuro, acrescentando outros tipos à lista - retirar, nunca.

Gente que não gosta de cachorro.
Compreendo que alguns tenham medo e que outros tenham preguiça de limpar cocô no chão todo dia, mas não entendo. Não entendo que não se goste de cachorro, que prefira-os longe, que não se tenha vontade de abraçá-los, que não sorria quando se vê um se aproximar, que não pense em como a vida é melhor com cachorro e em como eles são melhores que pessoas e que portanto o mundo com cachorro é melhor do que um mundo sem cachorro, só com pessoas. Um mundo sem cachorros e com pessoas que não gostem de cachorros então, impensável, invivível, Deus me livre.

Gente que não toma café. 
Acho que não são pessoas de confiança.
Café é indispensável para existir, acordar, trabalhar, cumprimentar as pessoas no elevador sem sentir ódio. É necessária pra socializar à tarde e pra conviver consigo mesmo todas as manhãs. Tem sabor, tem variações, causa tremores a cada 12 horas sem tê-la por perto. Uma pessoa que consegue viver sem isso, e, impossível!, uma pessoa que não gosta disso, com certeza não é boa gente.

Gente que conta sua piada pros outros como se fosse dele.
Se afaste. Essa pessoa não presta, óbvio.

Gente que come pouco.
Também não merece confiança. Essas pessoas têm sérios problemas de saúde ou de caráter.

A pessoa que propõe o amigo secreto todos os anos, perto do Natal.
Níveis de carência elevados. É difícil lidar com gente assim, aposto nisso, porque sou carente (mas nunca proponho amigo secreto).

Gente que faz textos do tipo "lista" em blogs que não são lidos por ninguém. 
Desconheça. Sequer cumprimente.

Exercendo a maturidade

Aprender a tocar violão produz o retrato da sua maturidade e do quão adulto você já consegue ser.

Depois da terceira tentativa de entrar no ritmo da música, eu quero começar a chorar. Na quarta tentativa, eu me levanto fingindo que estou chorando e bebo uma água para me acalmar como se eu estivesse, antes, tentando resolver um problema grave cuja solução só eu sei. 

A quinta tentativa não existe, eu passo pra outra música.

A outra música eu toco uma coisa que já sei tocar desde a adolescência - ritmo balada, quatro acordes, letra pobre. Cada pestana é um som horroroso. Fico cabisbaixa, passo pra outra música. 

A outra música tem mais pestanas, então o som da música é horroroso e minha voz acompanhando torna tudo ainda mais freak show. Penso nos vizinhos, e como não gosto deles, canto mais alto e mais desafinado e com as pestanas ainda piores. Mas canso e volto pra primeira música, do ritmo fácil que pra mim é impossível (inclusive entra no rol das músicas que parecem fáceis mas que não são fáceis a "Não é fácil", ok, segue). 

Tento mais seis vezes, seis ou sete, até perceber que o ritmo sacudido da mpb virou um pagode na minha mão. Grito e tenho vontade real de bater com o violão no chão, mas claro que não faço isso, mas ajo do mesmo jeito quando tenho vontade de fumar e evito por motivos de saúde e pragmáticos (não ter cigarro no momento): me imagino praticando a ação. Alivia. 

Abro um vinho. Passo pra outra música de quatro acordes e letra pobre que também consigo cantar. Voz horrível, cifra que segue. Toco cinco vezes a mesma música até que eu comece a achar que sei tocar violão. 

Tento a música do ritmo impossível, não sai; quase choro, quase grito, quase jogo o violão no chão, ainda bem que estou tocando o violão que era de vovó, penso, porque se fosse o meu acho que já teria feito isso, ou arrancado as cordas, bebo mais. 

Depois da terceira taça de vinho, toco todas as músicas como numa playlist. Ou penso que consigo fazer isso.  Durmo bêbada e digo pra minha professora de violão que estudei bastante durante a semana. 

Antes que comece

Desativar parte das redes sociais evita recomeço do ciclo depressivo. Parece.
Reduzir visualização contínua e diária de felicidade exagerada e alheia evita recomeço do ciclo depressivo, parece.
Evitar contatos sociais reais continua ajudando evitando reduzindo início depressivo.
Parece que não resolve mas ajuda saber o que acontece antes do início do ciclo depressivo. Não o que acontece no início, porque se tem início já é certo que tem meio e tem fim, não se cancela nem retrai, só atravessa - a única forma de não atravessar o ciclo completo depois de iniciado já sabemos qual é. Pois que se saiba o que acontece antes de começar, os sinais fracos do que já é certo de vir.

Menos redes sociais menos pessoas menos contato social também, real e virtual, tudo evitado, tudo proibido. A bolha é o melhor lugar. Nunca acreditar nos conselhos de leitor de livro de autoajuda de que sair de casa é bom, interagir faz bem, é necessário ver pessoas e fazer novos amigos.
Ver pessoas e fazer novos amigos é completamente melancólico. A vida social é completamente melancólica.
Cada um no seu ciclo, nos seus sinais e no seu início.
Fuga absoluta e isolamento repetitivo. Pra aguentar. Pra atravessar. Pra sobreviver.