domingo, 11 de dezembro de 2016

Exercendo a maturidade

Aprender a tocar violão produz o retrato da sua maturidade e do quão adulto você já consegue ser.

Depois da terceira tentativa de entrar no ritmo da música, eu quero começar a chorar. Na quarta tentativa, eu me levanto fingindo que estou chorando e bebo uma água para me acalmar como se eu estivesse, antes, tentando resolver um problema grave cuja solução só eu sei. 

A quinta tentativa não existe, eu passo pra outra música.

A outra música eu toco uma coisa que já sei tocar desde a adolescência - ritmo balada, quatro acordes, letra pobre. Cada pestana é um som horroroso. Fico cabisbaixa, passo pra outra música. 

A outra música tem mais pestanas, então o som da música é horroroso e minha voz acompanhando torna tudo ainda mais freak show. Penso nos vizinhos, e como não gosto deles, canto mais alto e mais desafinado e com as pestanas ainda piores. Mas canso e volto pra primeira música, do ritmo fácil que pra mim é impossível (inclusive entra no rol das músicas que parecem fáceis mas que não são fáceis a "Não é fácil", ok, segue). 

Tento mais seis vezes, seis ou sete, até perceber que o ritmo sacudido da mpb virou um pagode na minha mão. Grito e tenho vontade real de bater com o violão no chão, mas claro que não faço isso, mas ajo do mesmo jeito quando tenho vontade de fumar e evito por motivos de saúde e pragmáticos (não ter cigarro no momento): me imagino praticando a ação. Alivia. 

Abro um vinho. Passo pra outra música de quatro acordes e letra pobre que também consigo cantar. Voz horrível, cifra que segue. Toco cinco vezes a mesma música até que eu comece a achar que sei tocar violão. 

Tento a música do ritmo impossível, não sai; quase choro, quase grito, quase jogo o violão no chão, ainda bem que estou tocando o violão que era de vovó, penso, porque se fosse o meu acho que já teria feito isso, ou arrancado as cordas, bebo mais. 

Depois da terceira taça de vinho, toco todas as músicas como numa playlist. Ou penso que consigo fazer isso.  Durmo bêbada e digo pra minha professora de violão que estudei bastante durante a semana. 

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