quinta-feira, 30 de março de 2017

ana cristina cesar

samba-canção

Tantos poemas que perdi.
Tantos que ouvi, de graça,
pelo telefone - taí, 
eu fiz tudo pra você gostar, 
fui mulher vulgar, 
meia-bruxa, meia-fera,
risinho modernista
arranhado na garganta,
malandra, bicha,
bem viada, vândala,
talvez maquiavélica, 
e um dia emburrei-me,
vali-me de mesuras 
(era uma estratégia), 
fiz comércio, avara,
embora um pouco burra, 
porque inteligente me punha
logo rubra, ou ao contrário, cara
pálida que desconhece 
o próprio cor-de-rosa,
e tantas fiz, talvez
querendo a glória, a outra
cena à luz de spots,
talvez apenas teu carinho, 
mas tantas, tantas fiz... 


(a teus pés)

adolescência contínua

um caderno lilás de bolinhas
um caderno lilás de florzinhas (esse pequeno)
marcadores de páginas nas cores rosa-choque, laranja-marcatexto
um estojo de bichinhos que eu comprei no museu em curitiba e trouxe pra minha avó e fiquei pra mim depois que ela morreu porque tem o nome Naide escrito algumas vezes nele, com aquela caligrafia perfeita que ela tinha
um lápis grafite lilás
uma caneta rosa
uma caneta roxa
uma poly lilás
um teto lilás
luzinhas pisca-pisca envoltas no mural lilás em formato de borboleta
um horário de estudos escrito a caneta roxa e colado na parede com etiquetas marcadoras de páginas na cor amarelo-verde-chegay
um papel de lembrete com molduras de florzinhas, post-its verde chegay, grudado na parede com marcadores de páginas nas cores rosa pink e amarelo-verde-chegay
uma mochila em cima da cama
porta-retrato com foto minha bebê na cama com meu pai
boneca bailarina, porta-recado em forma de borboleta, caneca com nome NEVES

cabeça insegura e sonhando dentro dum rosto de acne.

para ser de um jeito menos pesado

não era resolução, mas tem virado prática.

comecei a tentar meditar em janeiro, um mês confuso dentro da minha cabeça e do meu corpo inteiro, na verdade. eu vivo meio atrapalhada querendo que absolutamente tudo caminhe corretamente e dê certo, e seja tranquilo, e não doa tanto, porque aparentemente eu vivo farejando um sofrimento que tenho medo que me vença, e ele parece sempre perto, iminente, sempre disposto e me engolir e solapar. (será que dá pra falar assim, solapar) (parecem duas palavras, solapar)

a ideia é que eu consiga ficar literalmente mais leve, com pensamento de menos e neura de menos, e tensão menor também. que as ideias deslizem ao invés de me perturbar, que os sentimentos aconteçam mesmo quando forem ruins, mesmo quando for mais tristeza que felicidade que eu sinta.
a ideia é que eu consiga ser eu de um jeito menos pesado.

mas ter traços meio obsessivos e tentar se concentrar em não pensar em nada é absolutamente custoso. acho, até, que gente que consegue meditar (que consegue mesmo) é uma pessoa superior - em muitos aspectos. cognitivos, inclusive.

eu sento e presto atenção na respiração que aprendi lá no kung fu também: igual a um bebê, inflando a barriga quando inspira e jogando pra fora quando expira. se eu tiver aprendido certo, é assim, faço assim, tenho feito.

será que tá certo.

camila me disse que gosta de meditar colocando som de chuva, e eu tento. ela prefere com os olhos abertos, e eu tento.
todos os dias, quase, eu tento de um jeito ou de outro ou de todos e acho mesmo que melhoro uns zero vírgula cinco por cento de ansiedade. pelo menos para aquele dia.

ainda tenho insônia e falta de apetite às vezes e compulsão por organizar o que já está arrumado e medo absoluto quase pânico em ficar sozinha, e ainda sinto tristezas súbitas (e muitas vezes extremas), e me pergunto num recorde de centenas de vezes por minuto se as coisas vão dar certo, se eu mereço mesmo, se sou boa o suficiente para que as coisas boas aconteçam comigo.

parece não ter progresso nenhum, ainda, mas o zero vírgula cinco por cento por dia pode surtir um efeito lá na frente.

faço uma afirmação positiva, penso milhares de coisas positivas, repito que vai dar tudo certo, sim, ligo o som da chuva e concentro. respiro. desconcentro. respiro. e sigo acreditando quando fico um pouco menos pesada ao final de tudo.


quem estiver assistindo

acho que meu sopro no coração aumenta 0,03mm cada vez que lembro que próximo sábado tenho exame de faixa.

esse ano descobri isso, que tenho sopro no coração.
descobri também que apesar de usar o kung fu pra me ajudar com a ansiedade, quando eu preciso quebrar madeiras e permanecer minutos na posição do cavalo a minha ideia inicial vira espécie de pesadelo também.
o meu problema não é necessariamente não conseguir, mas ter plateia lamentando o que eu não conseguir, se eu não conseguir.

quebrei as madeiras em treino, fiz o cavalo no tempo a mais,
cheguei a treinar seis vezes em uma semana e fiquei tão cansada que ao invés de fome tive apetite nenhum nos dias seguintes. e uma dor excruciante no corpo inteiro dois dias depois desse exagero. parecia dor de doença grave, mas era só fadiga e comida de menos.

parece que continuo exigindo de mim em excesso até no que é besta, até no que me ajuda - ou deveria me ajudar.

o problema é ter a plateia. além de mim, a plateia.

quarta-feira, 29 de março de 2017

hoje em dia

não gosto mais de usar maiúsculas.

acumulando dívidas

termino dizendo no meio de uma conversa ou no meio de uma aula que fiz psicologia e aí tento explicar um negócio e aí tem quem ache que eu saiba, realmente, sobre psicologia. 
tento dizer que fiz a faculdade meio mal feita meio na pressa de terminar no meio de crises depressivas, também, por isso dedicando nada, por isso sei tanto de psicanálise quanto quem não sabe nem o que é psicanálise, mas há quem siga acreditando que eu sei muita coisa. 

me sinto em dívida comigo e com os outros e com o dinheiro público também. me sinto culpada. quase todos os dias levo uns três ou sete sustos ao longo do dia inteiro me perguntando em que momento da vida eu vou criar vergonha real disso e estudar essas teorias que eu sei só três por cento de cada. quando vou pegar um heidegger pra ler no original, um freud, um kiekegard. aliás me pergunto quando vou aprender a escrever kiekegard, e de que horas eu deveria sentar pra reler vygotsky e decidir saber sobre ele verdadeiramente. 

mastigo essas culpas enquanto me pergunto, também, em que momento vou parar pra estudar com real dedicação e zero distração e zero desconcentração sobre o estruturalismo, o funcionalismo, o gerativismo!!!, o funcionalismo, pra que eu possa finalmente entender o que estou fazendo da vida hoje (doutorado). 

minha dívida só cresce e eu me sinto cada dia mais obtusa, inócua e hipócrita. 
sinto mesmo. 



vou repetir esse texto dizendo outras coisas, depois. entrei em momento ansioso meio obsessivo outra vez.

tom zé,

a revista provou
o jornal confirmou
pela fotografia,
que nos olhos dela
tem sol nascendo.

(...)

no jeitinho dela
botei o passo
no compasso dela
caí no laço
no abraço dela
me desencaminhei
no caminho dela
me desajeitei,

terça-feira, 28 de março de 2017

Atrás de mulheres

Não consigo lembrar bem de que mês foi aquilo, mas acho que agosto, talvez setembro, mas um por aí do ano passado. Fui convidada para uma mesa com outras autoras editoras artistas: vamos falar de mulher na arte, vamos falar de mulher na literatura, de fazer literatura sendo mulher e tudo mais.

Um assunto urgente atual pra ontem, que alguns rechaçam, que vai se repetir muito nos próximos anos, e que torço para que sim. Há muito o que falar e repetir: só assim o verbo fica e as coisas mudam.

Pois foi.
Levantei os olhos pra minha estante e para as três prateleiras e procurei por elas. Procurei mais. Acreditei menos. Eu quase não lia mulheres. Quase não tinha livros escritos por mulheres, quase não falava nelas quando citava influências literárias e autores preferidos. Hipócrita e estúpida.

Alguns confundem a panfletagem de ler mulher como um esquema semelhante ao de cotas: vamos destinar uma porcentagem a essas pessoas que não teriam a mesma chance, coitadas? Vamos incluir a mulher como num sistema de cota literária para que ela nunca fique de fora? Coitada.

Mas esse raciocínio está longe de estar certo.

A política de ler mulheres, consumir sua arte, fazê-las escrever e aparecer mais e viver mais nesse cenário tem outros propósitos, outros motivos, e tantas variáveis que rendem textos demais. É sobre isso que temos conversado nos últimos meses, e sobre o que ainda vamos conversar daqui por diante.

Por enquanto, tenho de resolver esse problema urgente e vergonhoso que ainda mantenho: tem muito homem na minha estante, no meu doutorado, na minha proposta de tese, nos planos de leitura. Tenho ido atrás de mulheres cada vez mais, que, sim, continuam semi esquecidas, semi escanteadas, com acesso difícil até elas, mídia de menos sobre elas.

Desse período pra cá, li o romance de Débora Ferraz que ganhou o prêmio Sesc alguns anos atrás. Li Carol Bensimon e sua história de amor meio tensa meio inconclusa entre duas mulheres - Todos Nós Adorávamos Caubóis. Peguei emprestado e curti dum fôlego Sem vista para o mar, de Carol Rodrigues. Li o relato real de Olivia Byington em O que é que ele tem. Li os relatos corajosos da mãe ex dependente química Marina Filizola, em Leite em Pó. Também li e me assustei com A Guerra não tem rosto de mulher, de Svetlana Aleksiévitch. E reli coletânea de trechos da obra de Hilda Hist: Uma superfície de gelo ancorada no riso. Li Quarto de Despejo, de Carolina Maria de Jesus, e não fui absolutamente a mesma pessoa desde a primeira página desse livro. Estou terminando Hibisco Roxo, da nigeriana Chimamanda.

Ontem, procurava na internet um livro aparentemente esgotadíssimo na literatura contemporânea: Como se estivéssemos em palimpsestos de putas, de Elvira Vigna. Num segundo final da busca, entrei na livraria do campus e tinha lá um último exemplar (nas livrarias virtuais não tinha mais nada). Também liguei pro meu pai perguntando se ele tinha um livro publicado durante a ditadura, escrito por mulher: As Meninas, de Lygia Fagundes Teles. "Não sei, vou procurar". E três minutos depois me ligou já tendo achado o livro. Chegou ele de noite aqui em casa com mais mulheres pra me dar: Simone de Beauvoir com seu Balanço Final; a poeta Clara Góis, com Pedra do Morcego.

Agora sou ocupada preenchendo minha estante com mulheres, cada vez mais mulheres.
E cada dia que passa me parece mais lógico e mais necessário que vamos à literatura - sejamos autores ou leitores - como se vai ao amor e às vezes à morte, sabendo que fazem parte indissolúvel de um todo, e que um livro começa e termina muito antes e muito depois de sua primeira e de sua última página.


Cortázar,
em conferência no ano de 1984.

quer dizer,

uma vez eu era criança não muito criança mas criança grande, aí uma amiga da escola que era amiga mesmo (m.), do mesmo time de queimada, etc, fez um aniversário e não me convidou. mas convidou pessoas da sala que ela mal conhecia mas que gostaria de ser amiga.
uma vez eu era pré-adolescente e aí íamos as amigas para o cinema e no dia algumas não puderam ir e só podia ir eu e l. aí l. disse que não tinha muita graça ir só nós duas e não o grupo todo e aí decidiu ficar em casa e não fomos.
hoje em dia chamo minha mãe pra sair comigo pra gente comer algo fora e ela me troca pelo centro espírita.

quer dizer.


até que toda vez que isso acontece que um encontro não dá certo que alguém desmarca em cima da hora ou que alguém desmarca já com antecedência dizendo que não vai me ver que não prefere ou que não quer, pelo motivo que seja, minha criança grande grita JÁ SABIA minha pré-adolescente diz EU AVISEI e meu lado adulto não existe e por isso não diz nada.
esses quadros às vezes pioram e encerram ciclos que se demoram num momento de não ser assertiva nem propor nada a nenhuma outra pessoa, concluindo um fechamento absurdo e uma sequência ininterrupta de livros lidos e cadernos escritos e delivery gorduroso todo fim de semana.

pelo menos os livros.


esse fim de semana um amigo psicólogo comentou sobre os estilos de personalidade agressivo, assertivo e passivo e eu já sabia bem onde me encaixava.
com certo desespero também.

segunda-feira, 27 de março de 2017

reverter o caminho e crença

eu era muito criança e não tinha irmão de idade próxima pra ser companhia nem mãe em espaço e tempo próximos para ser companhia também - alguém tinha de trabalhar,
me dei conta tarde bem tarde que era bastarda e isso nem doeu, mas parece que ampliou o círculo de vazio de gentes que existia ao meu redor - um círculo onde eu estava bem no centro,
fui crescendo sozinha demais sem saber que era sozinha pois mal me dava conta de sabê-lo e nem fui fácil, a maior parte do tempo,
quando me dei conta de que não era fácil, era meio tarde, eu já era tida como difícil demais, afastava demais todo mundo - pensei,

até hoje não sei se a ordem é bem essa e se tá tudo certo, mas desenvolvi a crença absoluta (religião) da absoluta (2x) rejeição, que é o mesmo que um egocentrismo maldito, um egocentrismo ruim para si próprio, um egocentrismo que só serve pra te botar pra baixo. falei egocentrismo três vezes, agora quatro, em agora quatro linhas.

o rejeitado egocêntrico acha que tudo de ruim que acontece é culpa exclusivamente sua, que as pessoas não o querem por perto, que ele não é bom o suficiente pra ninguém e ele fica se esforçando pra ser bom mais do que suficiente mas nunca é, porque ninguém é, e depois ele lida com depressões e ansiedades e faz muita terapia pra alguém dizer à eleela que o mundo não gira em torno dele e que as pessoas se afastam não porque o rejeitam, mas porque elas têm uma vida que gira em torno de outras coisas também.
ele finge que acredita e segue o baile.

dança.

Ficção de vida real

Eu me dei conta de que só sabia ou de que só queria, praticamente, a partir de um agora recente, escrever ficção e mentira. Saí daqui e fiquei na outra plataforma digitando, rascunhando, escrevendo e inventando pessoas que não existem para falar de coisas que eu mal sabia o que eram. Às vezes escrevo um texto inteiro e mal sei o que fiz ali.

Admiti que não era boa de crônica nem de reflexão sobre a vida real. Acho que foi uma resignação diante do fato de que minha vida real não é interessante demais e de que não sou inteligente demais para tornar as coisas interessantes através de palavras. Fui inventar outros mundos vivendo em personagens quase sempre sem nome.

Personagens quase sempre sem nome.

Tudo isso para que eu pudesse fugir de qualquer coisa de real e concreta que eu devesse pensar com urgência. Resumi minha obrigação comigo mesma a cinquenta minutos de terapia na semana, e fingi que continuava a ficar adulta e madura.

E depois de vinte e seis anos, quatro dentes extraídos, algumas amigdalites muito graves e um noivado recém-terminado, me dei conta que eu vivia e ainda vivo com um medo absurdo de viver, sofrer, e falar de tudo isso. Tudo que eu levo para a terapia tem jeito de segredo, e quase tudo de fato é. Passei alguns anos ouvindo dos outros que eu "sofria demais", e isso me faz sentir culpada diariamente até hoje, até quando, até sempre talvez. Por isso escondo tanto e sorrio demais.

Em vez de crescer, talvez eu esteja mais criança e mais assustada e mais medrosa. Com uma vontade absurda de viver e conquistar tudo, igual a todas as crianças que pensam que o mundo é todo delas; eu ainda acredito que o mundo pode ser meu, que vai dar tudo certo (VAI SIM! gritei aqui dentro), que serei capaz de tudo. E enquanto me repito isso ao longo das horas do dia me sinto vivendo numa ficção bem acabada e sublime, pueril em excesso, que só adia sofrimentos vários e, pior, vergonha de sofrer verdadeiramente. Feito vida real.

quinta-feira, 2 de março de 2017

Sobre ficar menos difícil

A primeira vez teve um disparador óbvio. Foi impossível diferenciar o momento do quadro completo, da doença inteira, do que poderia me esperar dali em diante. Quem estava ao meu redor me fez acreditar que seria passageiro, e eu ouvia repetidamente de que “iria passar”.

Nunca passou.

Foi embora e voltou. Várias vezes. Até hoje vai embora e volta várias, inúmeras vezes. E não tem periodicidade certa. Um ciclo pro outro pode durar três meses, seis meses, às vezes só umas cinco semanas. Um ciclo sozinho pode durar várias semanas, pode durar um mês, pode durar alguns dias. Alguns são absolutamente apáticos; outros são verdadeiramente sombrios, sendo que acho esse adjetivo quase péssimo para descrever o que se passa. Não existe um bom adjetivo para descrever o que se passa; não é nem um pouco possível descrever o que se passa.

Quando eu estava na segunda grande queda fui sugerida pela psicóloga que procurasse ajuda de medicamento também. E meus dias e semanas eram preenchidos por consultas psicoterápicas e psiquiátricas e agora havia um remédio antes de dormir e um ao acordar. Como se um para aguentar a noite e outro para sobreviver ao dia. Quando um estivesse próximo de expirar, eu tinha um outro para me colocar no eixo apático outra vez, e funcionar quase que normalmente.

Fui desencorajada por pessoas próximas que me julgavam fraca demais, sucumbindo a isso, usando remédio, fingindo que estava doente. Acreditei que fingia estar doente assim como acreditei que iria passar, um dia.

Não passou. Foi e voltou inúmeras vezes. Não deixei de estar doente outras vezes. Mas deixei de conversar sobre isso.

Aconteceu que para minha sorte descobri alguns detalhes que devem fazer parte da vida antes, durante e depois do ciclo depressivo, para que a gente não sucumba (tanto) mais. Eles são quase clichês, mas não cheguei a lê-los em lugar nenhum, nem ouvir explicitamente de ninguém. Mas ter colocado em prática e mantido o orgulho das minhas escolhas tem permitido me respirar com calma, sem desejar parar de respirar quando mais um ciclo vem.

Quando houve a primeira vez, e a segunda vez, a mais difícil, eu fazia uma faculdade que detestava e convivia com pessoas que também não me faziam bem. Eu fingia que meu futuro seria aquela profissão e eu lidava com sujeitos que confiavam que eu estava ali para eles. Eu já estava morta antes mesmo do ciclo começar a acontecer; e passava a desejar isso quando ele vinha.

Se há algo que me segura e me salva agora, a cada nova queda, é a certeza de que não faço algo que detesto; melhor, a convicção de que faço exatamente o que quero para mim, o que gosto, a despeito dos contínuos comentários familiares sobre eu dever ter uma profissão que não necessariamente me faça feliz, mas me traga dinheiro. Eu lembro com muita clareza como é viver uma queda depressiva em uma semana (ou mês ou ano) enquanto se é obrigado a trabalhar com o que não gosta. Lembro lucidamente de como a infelicidade pode ser desesperadora, de como gritar por um fim abrupto pode acontecer cotidianamente – enquanto todos pensam que sua vida vai bem só porque existe um bom salário.

Eu não posso me dar o direito de fazer o que gosto somente nas horas vagas. Eu preciso que minhas horas de trabalho e também as vagas sejam preenchidas somente com o que gosto, e há alguns anos isso me acalenta – mesmo que, em quedas piores, nem essas tarefas eu queira fazer.

A segunda descoberta que também é remédio e no meu caso funciona, principalmente nas quedas mais longas, é cancelar ou simplesmente deixar de olhar as redes sociais. As pessoas as fotos as conversas os comentários. Porque às vezes provoca insônia ou um momento passageiro de ansiedade, e lidar com mais de um sintoma durante o ciclo torna o cotidiano mais difícil também – paro de me concentrar, não fico tranquila, e acordo no meio da noite com lembranças ruins.

Uma terceira e muito particular, que não cabe aos casos mais graves, só aos mais brandos e sob controle, é a de não contar a quase ninguém quando cada ciclo vier. É a escolha de não conversar sobre isso, sobre já ter tido uma duas dez vezes, de não dividir uma dor que pouquíssimas pessoas entenderiam e sobre a qual a grande maioria diria que “vai passar”. Nunca me ajudou muito conversar sobre. Me fazia criar expectativas de que haveria pessoas ao meu redor quando eu precisasse, mas isso não acontece todas as vezes. Ficar em silêncio e cultivar a tranquilidade de que, sim, não vai ser fácil, mas de que hoje consigo aguentar me ajuda mais; e não traz ansiedade nem expectativa de nenhum tempo. Lido comigo mesma como se houvesse duas pessoas que, em tempos diferentes, ocupassem o mesmo corpo. E é quase isso realmente.

Há outras duas descobertas mais recentes, e uma foi a constatação do quanto o dia a dia com meus avós faz falta nesses momentos. Cabe a convicção de que, se eles ainda estivessem vivos, eu enfrentaria esses dias com menos dificuldade, pela simples presença e olhar que eles me davam naturalmente. Sem que eles precisassem saber de nada. Talvez quem tenha seus avós ainda vivos e por perto possa fazer uso desse amuleto. E a minha outra descoberta é a de olhar ou entrar no mar, quantas vezes seja necessário, pelo tempo que seja necessário. Também salva.

Nenhum desses passos resolve nem cura, mas diminuem a solidão e o desespero que invariavelmente estão no ciclo.
Nunca senti necessidade de escrever sobre isso, nem sinto alívio de nenhum tipo agora. Mas se existe algo que tem me doído ainda mais nos últimos tempos é ver pessoas sucumbindo a uma doença que não parece doença, enquanto nós só assistimos, culpados, quase sempre surpresos, ausentes e egoístas com nossas dores, sem saber como ajudar alguém que não só não sabe, mas também não quer fazer nada com a própria vida. Alguns casos não poderão aproveitar nada do que eu disse aqui – se forem mais graves, mais antigos, piores. Mas espero que outros sim. E por isso essa crônica longa demais, feito conversa sincera, feito abraço que tentei dar mas que não sei se consegui muito bem – saiu meio folgado e meio frio.
Mas era isso.