terça-feira, 28 de março de 2017

Atrás de mulheres

Não consigo lembrar bem de que mês foi aquilo, mas acho que agosto, talvez setembro, mas um por aí do ano passado. Fui convidada para uma mesa com outras autoras editoras artistas: vamos falar de mulher na arte, vamos falar de mulher na literatura, de fazer literatura sendo mulher e tudo mais.

Um assunto urgente atual pra ontem, que alguns rechaçam, que vai se repetir muito nos próximos anos, e que torço para que sim. Há muito o que falar e repetir: só assim o verbo fica e as coisas mudam.

Pois foi.
Levantei os olhos pra minha estante e para as três prateleiras e procurei por elas. Procurei mais. Acreditei menos. Eu quase não lia mulheres. Quase não tinha livros escritos por mulheres, quase não falava nelas quando citava influências literárias e autores preferidos. Hipócrita e estúpida.

Alguns confundem a panfletagem de ler mulher como um esquema semelhante ao de cotas: vamos destinar uma porcentagem a essas pessoas que não teriam a mesma chance, coitadas? Vamos incluir a mulher como num sistema de cota literária para que ela nunca fique de fora? Coitada.

Mas esse raciocínio está longe de estar certo.

A política de ler mulheres, consumir sua arte, fazê-las escrever e aparecer mais e viver mais nesse cenário tem outros propósitos, outros motivos, e tantas variáveis que rendem textos demais. É sobre isso que temos conversado nos últimos meses, e sobre o que ainda vamos conversar daqui por diante.

Por enquanto, tenho de resolver esse problema urgente e vergonhoso que ainda mantenho: tem muito homem na minha estante, no meu doutorado, na minha proposta de tese, nos planos de leitura. Tenho ido atrás de mulheres cada vez mais, que, sim, continuam semi esquecidas, semi escanteadas, com acesso difícil até elas, mídia de menos sobre elas.

Desse período pra cá, li o romance de Débora Ferraz que ganhou o prêmio Sesc alguns anos atrás. Li Carol Bensimon e sua história de amor meio tensa meio inconclusa entre duas mulheres - Todos Nós Adorávamos Caubóis. Peguei emprestado e curti dum fôlego Sem vista para o mar, de Carol Rodrigues. Li o relato real de Olivia Byington em O que é que ele tem. Li os relatos corajosos da mãe ex dependente química Marina Filizola, em Leite em Pó. Também li e me assustei com A Guerra não tem rosto de mulher, de Svetlana Aleksiévitch. E reli coletânea de trechos da obra de Hilda Hist: Uma superfície de gelo ancorada no riso. Li Quarto de Despejo, de Carolina Maria de Jesus, e não fui absolutamente a mesma pessoa desde a primeira página desse livro. Estou terminando Hibisco Roxo, da nigeriana Chimamanda.

Ontem, procurava na internet um livro aparentemente esgotadíssimo na literatura contemporânea: Como se estivéssemos em palimpsestos de putas, de Elvira Vigna. Num segundo final da busca, entrei na livraria do campus e tinha lá um último exemplar (nas livrarias virtuais não tinha mais nada). Também liguei pro meu pai perguntando se ele tinha um livro publicado durante a ditadura, escrito por mulher: As Meninas, de Lygia Fagundes Teles. "Não sei, vou procurar". E três minutos depois me ligou já tendo achado o livro. Chegou ele de noite aqui em casa com mais mulheres pra me dar: Simone de Beauvoir com seu Balanço Final; a poeta Clara Góis, com Pedra do Morcego.

Agora sou ocupada preenchendo minha estante com mulheres, cada vez mais mulheres.

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