segunda-feira, 27 de março de 2017

Ficção de vida real

Eu me dei conta de que só sabia ou de que só queria, praticamente, a partir de um agora recente, escrever ficção e mentira. Saí daqui e fiquei na outra plataforma digitando, rascunhando, escrevendo e inventando pessoas que não existem para falar de coisas que eu mal sabia o que eram. Às vezes escrevo um texto inteiro e mal sei o que fiz ali.

Admiti que não era boa de crônica nem de reflexão sobre a vida real. Acho que foi uma resignação diante do fato de que minha vida real não é interessante demais e de que não sou inteligente demais para tornar as coisas interessantes através de palavras. Fui inventar outros mundos vivendo em personagens quase sempre sem nome.

Personagens quase sempre sem nome.

Tudo isso para que eu pudesse fugir de qualquer coisa de real e concreta que eu devesse pensar com urgência. Resumi minha obrigação comigo mesma a cinquenta minutos de terapia na semana, e fingi que continuava a ficar adulta e madura.

E depois de vinte e seis anos, quatro dentes extraídos, algumas amigdalites muito graves e um noivado recém-terminado, me dei conta que eu vivia e ainda vivo com um medo absurdo de viver, sofrer, e falar de tudo isso. Tudo que eu levo para a terapia tem jeito de segredo, e quase tudo de fato é. Passei alguns anos ouvindo dos outros que eu "sofria demais", e isso me faz sentir culpada diariamente até hoje, até quando, até sempre talvez. Por isso escondo tanto e sorrio demais.

Em vez de crescer, talvez eu esteja mais criança e mais assustada e mais medrosa. Com uma vontade absurda de viver e conquistar tudo, igual a todas as crianças que pensam que o mundo é todo delas; eu ainda acredito que o mundo pode ser meu, que vai dar tudo certo (VAI SIM! gritei aqui dentro), que serei capaz de tudo. E enquanto me repito isso ao longo das horas do dia me sinto vivendo numa ficção bem acabada e sublime, pueril em excesso, que só adia sofrimentos vários e, pior, vergonha de sofrer verdadeiramente. Feito vida real.

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