domingo, 30 de abril de 2017

sem arrebatamento

esses dias em brasília,
que continuo achando seca demais vazia demais estranha demais, mesmo que bonita.
bonita só de olhar rapidamente,
depois passa.
sem arrebatamento.

segunda-feira, 24 de abril de 2017

acho que

entre as melhores decisões que tomei nesse ano, estão
desativar o facebook
parar de usar instagram
parar de usar maiúsculas em quase tudo
ser menos passiva
ser mais assertiva
'ir com medo mesmo' - deixando pra sofrer só num depois, se sofrer.



parece que tá tudo melhor, apesar de um tudo ainda difícil e incerto.
ainda, né.

você pra mim é privilégio

eu gosto de tocar e ouvir as músicas de banda do mar e de mallu magalhães,
e apesar de certo preconceito que muita gente tem eu acho umas letras muito poéticas, na real. bonitas e leves. :)
acho que a gente precisa mais disso na música,
e talvez por isso eu tenha voltado a estudar violão depois de tanto tempo - por conta de músicas assim,


seja como for, eu vou 
e vou correndo, não quero perder nada, 
custe o que custar eu dou 

(...)
meu bem, você pra mim é privilégio, 
sorte grande de uma vez na vida
minha chance de ter alegria.


é simples e quase brega e bonito porque simples e quase brega.
'meu bem, você pra mim é privilégio' é bem bonito e sincero de se dizer.

cancelei uma passagem pra uma viagem de férias na alemanha,
comprei passagem pra brasília,
comprarei uma para piracicaba,
depois haverá mais viagem para brasília,
e uma viagem solitária ao rio de janeiro por motivos de congresso.

tá bem diferente esse ano mesmo.
espero que fique bom e mais previsível e mais estável :)
são precisos banhos de mar
banhos de mar e água de coco e mais meditação e mais banhos de mar
banhos de mar

domingo, 23 de abril de 2017

mas passa.

às vezes, dias muito ansiosos acontecem sem que eu sequer perceba que estou tão ansiosa. mesmo que eu medite, durma bem, me esforce pra controlar meus pensamentos, alguns reveses são imprevisíveis e só se apresentam como tais quando a coisa já saiu um pouco do controle.

hoje lavei louça excessivamente e desejei que houvesse mais, pra eu poder fazer algo útil com as mãos, assim ocupadas, e com a cabeça dedicada a cumprir aquilo, somente.
fui almoçar no quilo e meu prato deu metade disso: 500g. e, sim, eu comi tudo, nem fiquei tão cheia, apesar do exagero de comida.
cheguei a jogar paciência no computador, a despeito da quantidade de coisas que eu tinha de fazer e estudar hoje.
e, mais uma vez, tive uma desconcentração que galopava na minha cabeça e dentro do meu quarto, me impedindo de estudar de verdade, ler de verdade, ser alguém de verdade.


mas passa.
vou controlando isso aos poucos.
num vou?!

quarta-feira, 19 de abril de 2017

sejamos todos feministas,

chimamanda ngozi adichie,

~~ 

dia por dia anti-bad

meditação + chá de erva doce;
tom zé + chá verde;
faxina + comida saudável;
mais chá;
banho frio com sabonete jômso e perfume jômso da tampa lilás, logo de manhã cedo.
ontem tive um insight difícil de assumir sobre a minha busca por homeostase por aqui, do humor e tudo mais, do que procuro pra estabilizar isso, e de como sou dependente dessas coisas.
escrevi um e-mail pra minha psicóloga que ficou entre o tamanho do velho e do novo testamento,
o que fez o universo conspirar pra um paciente dela desmarcar e eu poder ir hoje lá.
aí eu falto aula e vou à terapia porque, de fato, há alguns sustos que apesar de clarearem as ideias e os sentidos (dores) de tudo, continuam a te deixar em um lugar nebuloso. difícil de enxergar o passo-a-passo, apesar de estar claro onde você deve chegar.

terça-feira, 18 de abril de 2017

tom zé,

menina amanhã de manhã quando a gente acordar quero te dizer que a felicidade 
vai
desabar sobre os homens
vai
desabar sobre os homens
vai
desabar sobre os homens

na hora ninguém escapa
debaixo da cama
ninguém se esconde
a felicidade 
vai 
desabar sobre os homens

(...)

menina a felicidade é cheia de praça
é cheia de traça
é cheia de lata
é cheia de graça,


<3 p="">
eu reviso uma dissertação de 135 páginas e perco mais tempo ajustando às normas da abnt do que revisando o texto em si.
¬¬
e ainda faço isso da abnt na maior insegurança, porque tem muito detalhe que passa.
vou parar de fazer revisão acadêmica. abnt é desgastante :p

segunda-feira, 17 de abril de 2017

outro drummond

um autor brasileiro foda pouquíssimo lido e que escreveu e foi bem atuante na ditadura: roberto drummond.
não sei por que as pessoas escantearam um cara desse. o seu "quando fui morto em cuba" é um livro massa publicado durante a ditadura. tem uma literatura "pop", ironia fina, muito deboche. ele era bem gênio, bem bom. e só ficou conhecido por ter escrito 'hilda furacão'. ¬¬


morreu em 2002.
é mais difícil lidar com a alternância aleatória do humor do que com a apatia constante. e mais difícil quando isso acontece num mesmo dia,
sem que isso seja nem um pouco compreensível pra quem está por perto.
o sentimento de solidão também tem altos e baixos muito discrepantes. de um dia pro outro. de uma manhã pra uma noite.
e essa instabilidade impede que eu me programe para qualquer atividade ao longo de vários dias. incluindo trabalho, estudo, cobranças do trabalho, cobranças do frila, e lazer também.

eu obsessiva e enlouquecidamente às vezes faço contagens que repetem, em cada número, que 'vai dar tudo certo'. eu só quero que dê. que passe. que fique tudo bem.

domingo, 16 de abril de 2017

café

café bem preto para assumir e sentir que existe,
uma repetição de cafés fortes para sentir que é possível seguir alerta, não imóvel, não inerte, de um jeito que as coisas acontecerão,
as melhores coisas acontecerão.

todo dia isso.

elvira vigna 02

~ E o que há para acreditar é que vai dar tudo certo.

~Mais do que vizinhos acabaram amigos. Talvez mais do que amigos. Desses que nem precisam falar para se entenderem. 

~ Um ar que existe. 
Um ar com existência. 
(...) No sentido de ter uma presença. Denso. 

~ Depois de ter aprendido o que lhe faltava aprender, ali, do lado, no balcão, um sorriso doce e nenhuma pressa. 

~ O curso não é tanto de especialização como de desasnagem. Consideram todos que não venham de país rico como asnos que precisam aprender, não a especialização profissional, ou só ela. Mas aprender a viver. Por viver entendem gostar de beisebol, churrasco e terem uma espécie de atitude amistosa básica uns com outros, o que não é inclui, é claro, o diferente deles. No fim, é isso. Uma tentativa de tornar o funcionário oriundo do cu do mundo mais parecido com o que eles consideram uma pessoa legal: eles. 

~ E a novidade é o silêncio. Que, aliás, era o começo do resto todo. Nós e o próprio escritório tentando inventar os dias por causa de um silêncio. Agora ficávamos, os três, com o silêncio, mais presente, cada dia. 

~ Uma versão nossa de um futuro que tem volta. 

~ E ele fala e tenho vontade de dizer para ele calar a boca um instantinho porque eu precisava pensar. 

~ É a última.
Vem por cima de todas as outras. Lola incluída aí. Eu também. Nenhuma de nós de fato com uma existência separada. Só traços sobrepostos, confusos, não claros. Como se estivéssemos, todas nós, num palimpsesto. 

~ Um nada encaixotado, afinal. 

~ Ela fica bem na água. Tem s movimentos necessariamente elegantes e lentos de quem fica bem dentro de uma coisa densa, de um ar mais denso, ou da água. Lida bem com densidades. 

~ Um gerúndio que afinal termina. 



(do livro "como se estivéssemos em palimpsesto de putas")

quinta-feira, 13 de abril de 2017

meu corpo antecipa e adoece antes dos piores sustos. agora é assim.
como se me avisasse e me protegesse e parcelasse em mais dias um sofrimento agudo que pode vir depois do susto.
a dor do susto ainda é (foi) grande, mas sei que sem os avisos físicos de antes teria sido pior, teria sido de desespero maior também.

tive dores de barriga sem motivo aparente por dias, insônia sem motivo aparente, acordando depois de um sono relativo como se tivesse apanhado, tivesse levado uma surra difícil nas costas e nas costelas uma a uma.
tive pressões por dentro dos olhos e tonturas aleatórias, dor de cabeça entre as duas sobrancelhas também, e eu me perguntava por que e se passaria.

me perguntando por que e se passaria.

em frente ao fundo

desci a escadaria já sem chinelos já sem calçados com roupa inapropriada também, short muito curto e blusa muito justa, duas roupas muito velhas que não lembro de que horas havia vestido, não lembro a que horas havia acordado e decidido ir, não fazia também tanta ideia de que horas seria aquele estar ali,
desci as escadarias com os pés descalços mal encostando no chão e eu ia com certa pressa, ia daquele jeito do adjetivo lépido, um apressado meio leve, que quase corre que vai bem solto,
quase não havia areia seca pois era maré cheia,
fui corpo adentro com os shorts e a camiseta a roupa inapropriada que encharcava e devia pesar mas eu não sentia, e fui sempre em frente ladeando aquela corda com boias que separa os praticantes do estandape dos não praticantes do estandape,
os que mergulham nadam se banham,
com ou sem roupas adequadas,
entrei já nadando já ia agora com a água no peito quase no pescoço, entrei mais, nadei minutos, mas olha que agora me dou conta agora me lembro agora anuncio nem nadar eu sei, assim, consigo não me afogar e tudo mais, não sei mesmo é nadar do jeito certo, sabe o jeito certo, o nado que tem até nome, esse eu não sei, mas nesse meu agora não existe mais jeito certo não existe jeito algum,
fui em frente sem parar de nadar do jeito errado certo torto que eu tinha, mergulhava e emergia mergulhava e emergia, subia com os cabelos mais curtos colados na frente do rosto, mergulhava e eles iam pra trás,
nadei mais e fui mais em frente e lembrando e dizendo e anunciando que eu não sabia nadar, talvez até então achasse que soubesse que não me afogaria, mas ali, agora sem sentir pés tocarem no chão, agora avançando em direção a balsa ao barco aos infinitos, agora eu já não tinha tanta certeza assim,
e isso só me dava mais vontade de continuar em frente, cada vez mais em frente cada vez mais fundo, eu repetia sem dizer, repetia pensando, mas pensando de um jeito meio sem fôrma de pensamento, cada vez mais em frente cada vez mais fundo, eu não sei nadar, cada vez mais em frente e mais fundo,
já não havia mais quase ninguém ao meu redor e eu seguia mergulhando e emergindo, mergulhando e emergindo, deveria estar cansando mas não sentia se a respiração apertava,
repetia mais em frente e mais fundo,
eu não sabia se sabia de fato nadar, eu não sabia se conseguiria voltar mesmo se soubesse, eu não sabia se aguentaria fazer todo o caminho de volta quando quisesse,
e apesar e por isso continuei cada vez mais em frente (e ao fundo).
eu não sabia nadar, não conseguiria voltar, e a essa altura (tão funda) não sei mesmo se gostaria de ser capaz de uma das duas coisas.

quarta-feira, 12 de abril de 2017

elvira vigna

- Tudo combina, nessas casas novas de recém-casados. Tudo é do bom. Pior: há uma noção de que existe um tudo, uma totalidade, e que esse tudo está dentro da casa nova. Isso é o mais engraçado. Ou triste. 

- Uma loteria resiste. Está certo. Se fecha, a sorte, se a sorte fecha, é grave. Então resiste. É o tipo de coisa que resiste. 

- Eu fumo cigarrilhas holandesas, sabor baunilha e chocolate. Vêm em uma caixinha muito bonita de metal. Gosto da caixinha, menos das cigarrilhas. Mas acho que compõem a pessoa que tento ser. Brava pra caralho. 

- ... lugar-comum é apenas uma verdade que se repete. 

- E o futuro seria de gargalhadas, champanhe no chão e um levitar que nos colocaria sempre, dormindo ou no meio da rua, de pé ou de cabeça para baixo, a pelo menos um metro acima do resto da humanidade. Isso eu e o Arquiteto. Gargalhantes para sempre. 

- E rio muito porque nessa época eu rio muito. 

- O apartamento tinha/tem quinas arredondadas, que não me machucariam mesmo se eu me jogasse contra elas, e quando comprei nem me passava pela cabeça que eu teria vontade de me jogar contra elas. Paredes velhas, grossas e de quinas arredondadas. Quase um colo. 

- Eu, eu não me posso jogar fora. Os desenhos, esses eu vou jogar. 

- Então, hesito em ir. 
Porque sou assim, hesitante. Tento rir. 

- Sem fazer a menor ideia do que é o São Francisco. Do que é olhar para o azul do São Francisco e saber que ele pode levar, entre espinhos e aridez, pode ajudar a levar alguém que quase desiste, que por uns instantes só boia, os olhos fechados, só boia, esperando chegar e tanto faz o lugar. Até que chega. E é um mar. 




(do livro: como se estivéssemos em palimpsesto de putas)

~

- às vezes antecipo medos concretos que me dão altos picos de ansiedade e humor deprimido ao mesmo tempo, e eu não faço a menor ideia de por que faço isso e muito menos o que fazer com isso, 
- penso em meditar de novo mas tenho horário e preciso sair, 
- penso que deveria então me atrasar se for por essa boa causa, 
- penso se é melhor reduzir ainda mais o uso de rede social (virtual e concreta),

penso mais se deveria seguir escrevendo sempre essas coisas aqui.

terça-feira, 11 de abril de 2017

alguns minutos no dia

acho que quando decidi começar a meditar foi um tanto sem muito propósito, meio desconfiada de que ia conseguir, também. não tinha grandes objetivos, mas achei que me faria bem, que deveria tentar mesmo parecendo algo bobo.
não é. ficar minutos se concentrando na própria respiração ainda é uma das coisas mais difíceis que já tentei na vida, que tenho tentado.

camila disse que posso sempre tentar só alguns minutos, menos de cinco até, o ideal é não fazer sem vontade, não continuar quando estiver achando ruim. ela indicou também o som da chuva e eu ponho. fecho os olhos e não sei se, dos cinco minutos que fico, quantos eu realmente consigo me concentrar nessa respiração ao contrário (encher a barriga enquanto inspira o ar; expulsar o ar secando a barriga - o contrário da respiração que a gente pensa que acalma, aquela que inspira forte sugando o ar do mundo inteiro).

mas acontece uma mágica que o pescoço "destensiona" nos primeiros minutos. parece que eu desabo tirando pesos de cima de mim,
e de fato duro poucos minutos, porque depois de um tempo eu já não consigo mais manter a ideia de que devo ficar ali só respirando, sem pensar em nada.
e quando decido terminar me dá um banzo, um médio sono, uma disposição em existir, também, e uma ausência de ansiedades e de sintomas deprimidos. ao mesmo tempo. não me sinto pressionada a pensar positivamente nem me sinto invadida por algo de triste e pesado. fica um vazio bom.

continuo tentando.

tangente

a impressão que tenho é nova e parece bem definida, a impressão que agora percebo e mantenho é de que ao invés de caminhar numa linha reta onde haverá as baixas, que são os períodos intensos do ciclo, ando numa linha retas onde não há baixas, mas curvas tangentes que me puxam para dentro desse ciclo,
e algumas vezes me puxam muito rapidamente e me mantêm lá dentro,
e outras me puxam muito rápido e me jogam de volta,
e tantas muitas me deixam na beirada da tangente, com os pés prestes a entrar no precipício que já conheço,
e parece que vou ficando em volta, em volta, em volta,
o ciclo continua girando bem na minha frente, bem do jeito que já conheço, uma energia tenta puxar meu corpo e dependendo de como ele esteja ele se deixa ir,
cair pra dentro,
às vezes dentro de dias ele é jogado pra fora de novo, anda mais um pouco em linha reta, e novo círculo do ciclo lá na frente, um pouco adiante nessa linha, o novo ciclo o novo círculo tem essa tangente que sai de dentro dele e pode me puxar a qualquer momento.

fico entrando e saindo, caindo e sendo sugada, voltando à superfície, respirando rápido, sangrando gengivas, antecipando a nova queda, pedindo e torcendo para que tudo dê certo.

para que tudo dê certo de uma vez. sem que eu visualize nem antecipe novas tangentes pela frente.
lavar cabelo segue sendo um dos melhores momentos do dia.
ainda bem que mantenho essa obsessão de lavar o cabelo todo dia. acho saudável, até, em vários aspectos.

tenho achado que tô escrevendo coisas cada vez mais bregas cada vez mais piegas cada vez mais repetitivas e vazias de significado. mas não vazias de sentido.
se é que me entendo(e).

domingo, 9 de abril de 2017

vdc

sonhei hoje pela segunda vez comigo sendo mãe, agora mãe de dois.
igual da primeira vez, eu parecia estar sozinha nessa, parecia mãe sem pai do lado, só eu e eles,

na primeira vez era uma menina, marina, e o sonho era bem massa, na real. tinha uma energia boa e praia e amigos por perto e comida na mesa e coisas assim, a energia era real, viva, tinha felicidade,
o de hoje também tinha, mas era bem confuso que às vezes parecia que eu estava pensando sobre isso no sonho, eu estava sonhando comigo pensando nos filhos, mas os filhos apareciam e eram bem vívidos, então não acho que era eu imaginando,
era no máximo um sonho dentro do sonho,

e dessa vez bem como eu queria, uma menina recém-parida e um menino adotado, mais velho que ela, mas que tinha chegado depois, não importa, os dois comigo bem próximos bem nós.

espero que não seja exatamente assim. falta uma peça nos sonhos, que espero que complete no futuro,
espero que a peça faltando seja o inconsciente e a infância se manifestando,
e não o presságio.
perguntam pelo seu ex perguntam pelo preço do seu condomínio o preço do seu aluguel questionam querem de novo que você fale do seu ex onde ele tá mas cadê ele o que aconteceu falam de doença e perguntam quando vai lançar livro novo esquecem que você abandonou a primeira profissão mas foi mesmo e por que

enfiam os dedos em todas as feridas ao mesmo tempo e querem que a gente goste de ir pra festa de família. 


eu só queria fugir e vir pra casa ler um livro.

sábado, 8 de abril de 2017

sol prateado

antes das  9h eu dirigia pro kung fu, na faixa do meio da prudente, e no cruzamento com a antônio basílio, do lado esquerdo, alguma coisa tinha feito o trânsito parar, e o guarda de trânsito já ajeitava o fluxo que estava lento dos dois lados. cheguei perto e vi um caminhão, desses de caçamba muito grande, batido num poste, que tinha pendido e, sinceramente, não lembro agora se caído atravessando a avenida ou se estava só torto. a frente do caminhão destruída. ninguém dentro. exatamente em cima do cruzamento, em cima dos "xis" amarelos dentro do quadrado amarelo que preenche todo o cruzado das duas avenidas, um corpo estendido, e um papel prateado por cima.



acho que foi uma das coisas mais tristes e assustadoras que eu já vi. pior do que algo sangrento ou de ferido muito grave. era tosco, era triste, era inverossímil, até. era frio e chocante. não sei explicar.
provavelmente tinha acabado de acontecer; não sei há quanto tempo ele estava estendido ali, mas a morte em si, tinha acabado de acontecer. não tinha ambulância nem carro do iml ainda. não tinha polícia. só os guardas de trânsito (que vêm de moto) chegaram a tempo de organizar algo.

leio a notícia e vejo que o caminhão atropelou esse motociclista. um homem de 53 anos, recém-morto, coberto por um papel prateado no começo de um sábado.

ainda parece tosco, inverossímil, absurdo. um papel de cor prata cobrindo cadáver no meio do asfalto.
num sábado de manhã.

sexta-feira, 7 de abril de 2017

os bons

tive um sonho bem bom essa madrugada. que quando acordei no meio da noite a realidade era que parecia mais absurda e mais mentira do que eu tinha sonhado. eu estar na cama e não no sonho era que estava como absurdo.
espero que seja bom presságio. (e/ou que vire real)

falei pra uma plateia de professores hoje pela manhã,
já segunda vez esse ano que falo como escritora para uma plateia dessa.
ainda é muito estranho ser chamada de escritora sem me considerar tanto isso,
e mais ainda falar para quem está numa profissão na qual eu ainda estou me formando (e não me sinto quase nada preparada).

essa semana também comecei a roda de leitura com os adolescentes em cumprimento de medida socioeducativa. como parte da atividade de estágio II, do curso.
foi massa. superou expectativas. eles eram só três, comigo quatro, com a educadora que quis ler e conversar junto, cinco. mas foi bem bom. tenho mais sete encontros pela frente.

tô lendo esse livro bastante bom: "como se estivéssemos em palimpsesto de putas". elvira vigna. despretensioso, simples, realmente bom.

foi uma semana de surpresa ruim e foi também difícil, mas teve dessas coisas. ainda bem.
segue o baile.

quinta-feira, 6 de abril de 2017

cem dias

cem dias de muitas reveses e senões e quases. 
eu pus como meta e princípio o seguir acreditando de que um tudo daria certo, seria logo, aconteceria, e gastei uma energia que aparentemente tinha bem pouca mas quis esgotá-la. só com isso. repetindo acreditando me esforçando em fazer dar certo. eu não aceitar novo revés nem nova recaída na queda. assim, a queda dupla mesmo, recaída na queda; bem como ela é todas as vezes. 

o problema foi que, aparentemente, esse movimento produziu mais ansiedade que bem-estar, tranquilidade nenhuma, e meu corpo, numa busca bizarra e escrota por homeostase, alternava os picos de ansiedade com picos de apatia que pediam pra ficar. porque eu tinha gastado energia demais. ele pedia que eu não gastasse agora, que não fizesse nada, acreditasse em nada, que deixasse o que fosse difícil chegar e ficar, não por instantes, mas por período. como no passado. 

eu segui teimando até esgotar várias vezes, recomeçar, ter novo pico, revés, sangue na gengiva, dor dilacerante, insônia demais e concentração nenhuma pelos dias. 

da última vez decidi que ia deixar o revés tomar conta e aceitei a recaída. 
desisti fugi e fiz tudo de novo: repeti que daria certo, me movimentei em excesso, fui mais assertiva que passiva, só assertiva, em excesso nisso também porque achei que era preciso, 
que era pra não cair de novo, deitar de novo sem querer levantar. 

novo revés
de queda estatelada. 
que nem vou na intenção de levantar, na tentativa de erguer um algo. só fico. 

agora energias nenhumas, 
crenças nenhumas também, nem boas nem de outra ordem. 
acabei de cancelar uma passagem de férias para a alemanha.




essa frase em outro período da minha vida seria impossível de absurda.

parece que ainda é.
escavei o instagram por horas (dez minutos) tentando retirar minha foto do perfil (que já uma não-foto) e deixar aquele avatar fantasma de quem faz perfil e não adiciona foto, mas aparentemente o aplicativo não permite isso mais.
tranquei a página que era pública e desinstalei o app do celular.

queria voltar lá só pra ter essa foto-fantasma no perfil, mas por ora vou deixar só abandonado mesmo.

quarta-feira, 5 de abril de 2017

ânsias,

alguns picos de ansiedade me dão uma vontade real de fumar, como se eu fosse fumante, como se eu fumasse sempre, sendo que nem uma coisa nem outra me acontecem, só a vontade incompreensível de acender um cigarro - talvez por acreditar que esse movimento vai me deixar menos tensa, vai me fazer respirar mais devagar já que vou ter de me concentrar em tragar e expulsar fumaças.

outros picos me transmitem a necessidade urgente de organizar toda a casa, começando pela louça da cozinha, passando pela área de serviço, terminando no meu quarto numa organização obsessivo-classificatória de todas as caixas e arquivos e na diminuição de roupas fora de uso que devem ser imediatamente doadas.

outros pedem que eu dirija à esmo pela cidade o máximo de tempo possível, imaginando que ao fazer isso eu consiga não pensar em muita coisa porque somente a ideia de estar em movimento produz a ilusão de que eu estou em movimento na vida, no sentido abstrato do negócio, e isso já me deixaria menos tensa porque comunica a mim e ao mundo de que estou fazendo algo e não somente parada sentindo ansiedade e desespero leve.

todos eles invariavelmente terminam comigo exausta, como se sentir a ansiedade cansasse como correr por horas, trabalhar por dias, passar mal enquanto se viaja de avião. concluo um ciclo curto desses escrevendo, e repetindo feito mantra por dentro da cabeça que vai-dar-tudo-certo.

adormeço e tenho insônia no meio da noite, antecipando em parcelas os picos que aparecerão no dia seguinte.

Chimamanda

Trechos do manifesto Para Educar Crianças Feministas, da nigeriana Chimamanda Ngozi Adichie:


- Lembra como a gente riu com um artigo atroz que saiu sobre mim uns anos atrás? O autor me acusava de ser "raivosa", como se eu tivesse de me envergonhar por sentir "raiva". Claro que tenho raiva. Tenho raiva do racismo. Tenho raiva do sexismo. Mas eu recentemente percebi que tenho mais raiva do sexismo do que do racismo. Pois na minha raiva do sexismo eu frequentemente me sinto sozinha. 


- Ensine Chizalum a ler. Ensine-lhe o gosto pelos livros. A melhor maneira é pelo exemplo informal. Se ela vê você lendo, vai entender que a leitura tem valor. Se ela não frequentasse a escola e simplesmente lesse livros, provavelmente se instruiria mais do que uma criança com educação convencional. Os livros vão ajudá-la a entender e questionar o mundo, vão ajudá-la a se expressar, vão ajudá-la em tudo que ela quiser ser (...).


- Ensine-a a defender o que é seu. Se outra criança pegar o brinquedo dela sem permissão, diga-lhe para pegar de volta, porque seu consentimento é importante. Diga-lhe para falar, para se manifestar, para gritar sempre que se sentir incomodada com alguma coisa
Mostre-lhe que não precisa de que todo mundo goste dela. Diga-lhe que, se alguém não gosta dela, outro gostará. Ensine-lhe que ela não é apenas um objeto de que gostam ou desgostam, ela também é um sujeito que pode gostar ou desgostar. 
(...) eu gostaria que alguém tivesse me dito isso. 

o que é que dá pra fazer?

eu me dei conta que a casualidade era quem tinha o grau máximo da responsabilidade, do dizer, do prosseguir das coisas,
que eu não mandava nem controlava absolutamente nada,
por melhor que eu fosse.
ficou claro como era tudo mais uma questão de sorte e circunstância, em vez de esforço ou competência, ou dedicação.
as relações tinham mais a ver com acaso e um certo destino, esforço de menos e circunstâncias demais,
e enquanto isso me era dito para que eu não me responsabilizasse, em real eu só consegui, na sequência, sentir um desespero doloroso, uma dor sem remédio pelo que já houve e que antecipa o que pode vir.
talvez assim algumas dores não curem nunca mais,
e isso me assusta,
a casualidade me assusta muito mais do que conforta.

e parece que a única coisa que posso fazer por mim é torcer em absoluto para que haja sorte e sincronia,
sorte e sincronia,
sorte e sincronia.

que aparentemente significam a mesma coisa.

segunda-feira, 3 de abril de 2017

queria

saber desenhar,

acho que essa arte produz uma calma concreta que a escrita nem sempre promove,

que chegue logo quinta

amanhã e depois de amanhã tenho duas atividades que quero cumprir mas me deixam insegura em demasia. (gosto dessa palavra. demasia.)

amanhã faço o encontro 01/08 do estágio II, que vai ser uma parada que sempre quis dar conta: roda de leitura com jovens em cumprimento de medida socioeducativa.
e no papel a pretensão tá bem boa, mas na prática o vislumbre é só uma grande interrogação mesmo. se eu vou ler os textos e alguém vai falar algo, prestar atenção no que leio, se interessar, ou se vai ficar todo mundo por quarenta minutos com cara de tédio olhando pra mim e eu sem saber o que fazer (sempre) quase chorando de nervoso.
bem assim.

depois de amanhã vou mediar uma mesa (!), e eu não sei nem falar em público, quanto mais falar em público fazendo perguntas inteligentes a pessoas verdadeiramente inteligentes que vão estar comigo confiando que sei fazer isso.
nunca mediei nada antes. (dá pra saber, pelo meu déficit emocional generalizado no que diz respeito às relações sociais).

tomara que passe logo terça e quarta e chegue logo quinta.
mas aí na outra terça tem estágio de novo aí já não sei né
já viu né
etc

sábado, 1 de abril de 2017

percebi que os ciclos iam e vinham sem aviso prévio, às vezes com disparadores expressivos às vezes não. 
acho que dessa vez teve de novo, acho que das últimas vezes houve disparadores, sim, mas as novas tentativas de ciclo depressivo se instalando têm sido precedidas por picos elevados e difíceis de ansiedade, que agora têm somatizações estranhas, novas, que precisam de mais intervenção do que antes. 

minha gengiva passou a cair. a sangrar, inchar, inflamar. aparentemente, meu corpo adoece numa velocidade muito superior à cabeça e ao espírito todo; a somatização é abrupta e agora aparece assim, dando susto, não mais aos poucos. 
eu poderia achar isso péssimo, o que na prática é, mas não acho, porque desconfio mais que isso é meu corpo me protegendo dum estado pior; como os de antes, como os de outra vez. ele antecipa e ainda adoece mais que a cabeça; é uma compensação bastante legítima. 

e aí passei a esforçar minutos de meditação, e mantras com afirmações que me digam que tudo vai ficar bem, sim, que as coisas darão certo. que consigo mais essa. eu forço a barra até acreditar até a quase ficar bem até a respirar com mais calma e sorrir numa verdade. 
nas últimas vezes deu certo, mas sinto que dessa nova a bateria tá esgotando. 

e a gengiva sangrando, insônia presente, apetite frouxo também. corpo doente protegendo a cabeça e o espírito, que agora parecem fraquejar como antes. como outras vezes. como num passado que quero esquecer.