quarta-feira, 12 de abril de 2017

elvira vigna

- Tudo combina, nessas casas novas de recém-casados. Tudo é do bom. Pior: há uma noção de que existe um tudo, uma totalidade, e que esse tudo está dentro da casa nova. Isso é o mais engraçado. Ou triste. 

- Uma loteria resiste. Está certo. Se fecha, a sorte, se a sorte fecha, é grave. Então resiste. É o tipo de coisa que resiste. 

- Eu fumo cigarrilhas holandesas, sabor baunilha e chocolate. Vêm em uma caixinha muito bonita de metal. Gosto da caixinha, menos das cigarrilhas. Mas acho que compõem a pessoa que tento ser. Brava pra caralho. 

- ... lugar-comum é apenas uma verdade que se repete. 

- E o futuro seria de gargalhadas, champanhe no chão e um levitar que nos colocaria sempre, dormindo ou no meio da rua, de pé ou de cabeça para baixo, a pelo menos um metro acima do resto da humanidade. Isso eu e o Arquiteto. Gargalhantes para sempre. 

- E rio muito porque nessa época eu rio muito. 

- O apartamento tinha/tem quinas arredondadas, que não me machucariam mesmo se eu me jogasse contra elas, e quando comprei nem me passava pela cabeça que eu teria vontade de me jogar contra elas. Paredes velhas, grossas e de quinas arredondadas. Quase um colo. 

- Eu, eu não me posso jogar fora. Os desenhos, esses eu vou jogar. 

- Então, hesito em ir. 
Porque sou assim, hesitante. Tento rir. 

- Sem fazer a menor ideia do que é o São Francisco. Do que é olhar para o azul do São Francisco e saber que ele pode levar, entre espinhos e aridez, pode ajudar a levar alguém que quase desiste, que por uns instantes só boia, os olhos fechados, só boia, esperando chegar e tanto faz o lugar. Até que chega. E é um mar. 




(do livro: como se estivéssemos em palimpsesto de putas)

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