quinta-feira, 18 de maio de 2017

cidade de deus

Pelé e Pará pegaram o ônibus na Barra da Tijuca numa tarde de sol forte. Ficaram na parte de trás como se nõa se conhecessem. Observavam os relógios, anéis, cordões e pulseiras dos passageiros. Nas imaginações da Gardênia Azul, fizeram a limpa nos passageiros que viajavam na traseira, obrigando-os a descer do coletivo. Na altura dos Apês, fizeram a mesma coisa com os da dianteira. Em frente à quadra de samba trataram de recolher o dinheiro do trocador e foram para a praça dos Garimpeiros ajeitar o roubo. 

Um sargento do Exército, que estava no ônibus, observou o caminho que os dois seguiram. Indignado por perder todo o pagamento, foi para casa, apanhou seu revólver, deu a sorte de encontrar o camburão da Polícia Civil no caminho. Belzebu, depois de ouvi-lo, desceu do camburão. Saíram em passos rápidos pelo caminho que o militar indicava. 

Lá na praça dos Garimpeiros, Pelé discordava de fumarem um baseado naquele local, dizia que era melhor entocarem-se. Pará afirmava que a polícia iria direto para o Bonfim, depois para a Quadra Treze. Ali era mais seguro. Seu parceiro acabou concordando. 

Ao dobrar a esquina, Belzebu avistou a dupla. Recuou. Tramou um plano de captura com o sargento e montou tocaia na esquina. O sargento do Exército deu a volta pelo quarteirão, ganhou a ruela que levava à praça sem ser notado pelos bichos-soltos. Caminhou vagarosamente com a arma apontada. 

A tarde ensolarada já ia pelo fim. Pará apertava o baseado. Pelé recontava o dinheiro conseguido. Um menino, ao observar o sargento, voltou atrás, alarmando-os. O sargento atirou sem conseguir êxito. A dupla pulou o muro de uma casa e fez duas crianças de reféns, impossibilitando a perseguição. A voz e o choro da mãe das crianças obrigaram Belzebu a iniciar uma negociação. Garantiu que se eles se entregassem não apanhariam, muito menos levariam tiros. 
- Porra! Eu te falei que não era legal ficar aqui. Agora é melhor a gente sair pulando os muros de trás – sugeriu Pelé. 
- Que nada, meu irmão! Deve tá cheio de tira aí atrás – retrucou o parceiro. 
- É melhor vocês sair por bem, senão o bicho vai pegar! – insistia o detetive Belzebu. 

Pará, numa atitude impulsiva, libertou a criança, jogou o revólver por cima do muro, abriu o portão e saiu. 
- Coloca as mão pro alto e encosta na parede. Minha palavra vale ouro! – disse o detetive. 

Pelé num primeiro momento achou que o parceiro tinha agido errado, mas, como não ouviu sinal de espancamento, achou por bem se entregar, depois de ouvir do detetive que se devolvessem tudo eles os deixariam em liberdade. Pelé saiu com as mãos para o alto. Belzebu esticou a mão. Pelé entregou-lhe a arma. O sargento entrou no quintal para recolher os objetos roubados. O sorriso do detetive machucou os bichos-soltos. 
- Agora vão andando um do lado do outro com as mãos na cabeça – ordenou o policial. 
- Mas...
- Mas é o caralho, rapá!

Os bandidos seguiram a ordem de Belzebu. Novamente o policial e o sargento entreolharam-se. Combinaram tudo ali sem fazer uso de palavra. O primeiro tiro da pistola calibre 45 do sargento atravessou a mão esquerda de Pelé e alojou-se em sua nuca. A rajada da metralhadora de Belzebu rasgou o corpo de Pará. Um pequeno grupo de pessoas tentou socorrê-los, porém Belzebu proibiu com outra rajada de metralhadora, desta vez para o alto. Aproximou-se dos corpos e desfechou os tiros de misericórdia. 

(pp. 93-94)

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