segunda-feira, 8 de maio de 2017

sobre coragens

lembro que eu já ia quase na metade do curso de psicologia e já sabia que não gostava daquilo, mas não admitia. eu queria trocar e fazer jornalismo mas não tinha coragem. todos os dias me questionava e me odiava ali, naquela sala de aula, naqueles trabalhos, naquelas obrigações. eu não tinha coragem de largar. eu tinha medo de me arrepender.

cheguei na metade e desisti de tentar decidir.
em três dias percebi que eu iria fazer letras e seria feliz fazendo letras.
mas terminei o curso que já passava da metade.

não tive coragem de largar, de deixar interminado, de não ir até o fim. não tive coragem de não ir até o fim.

me formei e não soube lidar com a pressão familiar de você-tem-de-fazer-algo. mas eu tive ansiedade dessa pressão e me preparei logo para uma prova de mestrado. fiz vestibular também, mas vai que não passava em letras e teria de passar um ano fazendo curso isolado pro vestibular aos 22 anos - pra letras. pra letras.
passei nos dois.
e de novo não tive coragens.
não tive coragens de largar um dos dois e fazer só o que eu queria, que era uma faculdade problemática desde o início, a de letras.

fiz o mestrado até o fim. pelo menos meus pais me deixavam em paz, eu pensava todos os dias. era o que justificava. havia a bolsa, e eu queria viajar, e eu gostava, sim, de estudar, por que não fazer, eu não estava feliz mas estava menos infeliz do que se estivesse sendo de fato psicóloga. ali era só brincar de ser pesquisadora.
mas, de novo, fui até o final. não tive coragem de não ir até o final.

e eu levei essa atitude passiva covarde pra outros campos da minha vida desde então. uma passividade travestida de insistência, persistência. eu teria de ir até o fim, eu teria de fazer dar certo. não posso largar nem desistir, não posso deixar nada inacabado. isso é feio.
e nisso o tempo vai passando, eu vou morrendo aos poucos, eu vou ficando infeliz me fazendo feliz por estar conquistando objetivos (que não são meus nem são de ninguém).

segui passiva demais, covarde demais. a ponto de ser babaca. eu olho pra trás e não me arrependo dessas escolhas porque, sim, aprendi com elas em muitos aspectos. foram escolhas associadas a estudo e trabalho e dedicação acadêmica - mesmo eu tendo sido infeliz, há frutos colhidos, e isso importa, sim, que bom que importa.
mas eu só queria ter tido mais coragens de largar, de abandonar, de deixar as coisas para trás ou pela metade ou pelo um terço ou pelo um sexto, que fosse.
eu não deveria insistir tanto em tudo, resistir demais, persistir e levar até as últimas consequências.

vivi de me exaurir.

quando depois da exaustão tive de dar o braço a torcer e desistir e fugir e mudar o rumo, as coisas aparentemente estavam indo em bons novos caminhos mas logo degringolaram. muito feio esse verbo, degringolar. mas foi exatamente o que aconteceu. o que tem acontecido.
passei a tomar decisões intempestivamente por motivos de "estou há anos sem decidir por nada porque estava só insistindo resistindo persistindo pensando que isso era decidir mas não era". e aí passei a decidir pondo mãos no lugar dos pés, tendo pressa excessiva de viver e assumir o tudo, e experienciar o tudo, em fazer dar tudo certo. fazer dar tudo certo. pedir pra dar tudo certo.

sigo infeliz, parece,
mas de uma forma ansiosa. angustiada. insegura e sem lugar onde ficar.
sigo pedindo para que as coisas dêem certo, mas, aparentemente, o equilíbrio tem de chegar à força. eu agora vinha decidindo demais. escolhendo rápido, pedindo resoluções diretas, sem querer espera, sem querer tempo sem novidades, sem querer marasmos. comparando minha vida a de um outro que ainda me importa mas não me faz mais parte. isso é aceitável mas é fracassar antes de começar a andar; é um desistir antes de começar a tentar. não faz sentido.

me parece que num novo agora eu preciso decidir um quase nada. ironicamente, é o que o momento exige.
decidir demais não tem curado passado nenhum, e tem problematizado um presente que já está problemático.
parece mais necessário limpar as escolhas, seguir sem fazê-las por dias ou semanas ou meses. dá pra ficar torcendo para que as coisas dêem certo e se acomodem - é a escolha que parece adequada, a que consigo lidar agora.
esse tempo estranho e ainda difícil pede uma cautela desse tamanho.
e uma energia que esmague fazendo as coisas seguirem dando certo, apesar da passividade que agora não é covarde nem babaca, mas exigida e plena.

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