segunda-feira, 19 de junho de 2017

mais de pardal


Parei, o coração sufocado. Tinha vontade de exorcizá-la: vai pras profundas, bruaca velha. Os seios murchos, os olhos cegos, a boca desdentada, os ovários secos, mas sempre chamando e esperando. Ela me provava a existência real dessa raça de mulheres que não se esquecem, que se agarram a uma ternura desesperada e sem futuro. E eu temia encontrar nela a minha imagem, e mevia dali a sessenta anos, voltando para todos os lados a minha cabeça de lagartixa velha: "João, ô João". 


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- Marina, dizem que João está muito doente. 
- Não, é só um panarício - respondi. - Na caixa dos alfenins, eu vou lhe levando umas aspirinas. 
- Ele gostava de vir aqui às quintas-feiras - disse Açucena docemente. 
Louco por doces, João se sentava num tamborete ao lado do fogão e ajudava-a a fazer o puxa-puxa. Os fios brancos e viscosos do alfenim se esticavam entre as suas mãos, de uma palma a outra - clara sanfona. E ele mesmo ficava com cheiro de calda queimada. Eu sempre identificava aquele aroma com o do meu amor: nem suor nem esperma, apenas o odor inocente do açúcar. 

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- Ele não deu um pio, mas ficou com as vistas molhadas. A bem dizer, os olhos choraram sozinhos.


(o pardal é um pássaro azul,
heloneida studart,
1978)

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