terça-feira, 13 de junho de 2017

memorial de aires

17 de maio
vou ficar em casa uns quatro ou cinco dias, não para descansar, porque eu não faço nada, mas para não ver nem ouvir ninguém, a não ser o meu criado josé. este mesmo, se cumprir, mandá-lo-ei à tijuca, a ver se eu lá estou. já acho mais quem me aborreça do que quem me agrade, e creio que esta proporção não é obra dos outros, é só minha exclusivamente. velhice esfalfa. 



18 de maio
rita escreveu-me pedindo informações de um leiloeiro. parece-me caçoada. que sei eu de leiloeiros nem de leilões? quando eu morrer podem vender em particular o pouco que deixo, com abatimento ou sem ele, e a minha pele com o resto; não é nova, não é bela, não é fina, mas sempre dará para algum tambor ou pandeiro rústico. não é preciso chamar um leiloeiro. 
vou responder isto mesmo à mana rita, acrescentando algumas notícias que trouxe da rua, - a carta do tristão, por exemplo, os agradecimentos do barão à filha, e esta grande peta: que a viúva resolveu casar comigo... mas não; se lhe digo isto, ela não me crê, ri, e vem cá logo. justamente o que não desejo. preciso de me lavar da companhia dos outros, ainda mesmo dela, apesar de gostar dela. mando-lhe só dizer que o leiloeiro morreu; provavelmente ainda vive, mas há de morrer algum dia. 



(narrador conselheiro aires,
livro memorial de aires,
por machado de assis)

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