terça-feira, 6 de junho de 2017

menina a caminho

"Piedade pra tua mulher, Zeca, piedade!"

"Quem é que te ofendeu?" "Quem é que me ofendeu?"

Deitada de bruços no chão do quarto, os braços avançados além da cabeça, os punhos fechados em duas pedras, a costureira recebe as cintadas c'uma expressão dura e calada, só um tremor contido do corpo seguindo ao baque de cada golpe. Sua boca geme num momento:

"Corno" diz ela de repente, de um jeito puxado, rouco, entre dentes. 

O Zeca Cigano endoidece, o couro sobe e desce mais violento, vergastando inclusive o rosto da mulher. Uma, duas vezes. 

A vizinha se atira contra ele: 

"Você está louco, Zeca? Piedade! Piedade! Piedade!" suplica aos gritos, mas é repelida c'um safanão no peito. 

A mão já no ar, o Zeca Cigano prende o novo golpe, vendo com súbito espanto a boca da mulher que sangra. Encolhida na parede, a vizinha afunda a mão pelo decote e puxa o terço, correndo as contas com os dedos trêmulos enquanto chora. O silêncio ali no quarto suspende por um instante o gemido das crianças na saleta. O suor escorre no pescoço do Zeca Cigano, no torso nu e nos músculos fortes do braço. Atira a cinta num canto, deixa o quarto, passa pela saleta, atravessa a cozinha e pára no patamar da escadinha, voltado de frente pro quintal, o barracão abandonado nos fundos.

Sentada, os pés empoleirados na travessa da cadeira, o irmão pequeno choramingando no colo, a menina observa o pai no patamar, de costas, as mãos na mureta, a cabeça tão caída que nem fosse a cabeça de um enforcado. A menina também vigia os movimentos da vizinha se agitando da cozinha pro quarto, aplicando emplastros de salmoura nos vergões da mãe deitada. 

Quando a casa se acalma, a vizinha deixa o quarto encostando a porta com cuidado. Na saleta, ergue do chão o pirralho sem calça, envolve-o no colo, toma pela mão a menina mais nova, procura ainda pela menina mais velha, mas a porta do banheiro está trancada. Não espera e sai com as duas crianças pela porta da frente. 

No banheiro, a menina se levanta da privada, os olhos pregados no espelho de barbear do pai, guarnecido com moldura barata, como as de quadro de santo. Puxa o caixote, sobe em cima, desengancha o espelho da parede, deitando-o em seguida no chão de cimento. Acocora-se sobre o espelho como se sentasse num penico, a calcinha numa das mãos, e vê, sem compreender, o seu sexo emoldurado. Acaricia-o demoradamente com a ponta do dedo, os olhos sempre cheios de espanto. 

A menina sai do banheiro, anda pela casa em silêncio, não se atreve a entrar no quarto da mãe. 

Deixa a casa e vai pra rua, brincar com as crianças da vizinha da frente. 



final do conto "menina a caminho", de raduan nassar.

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