segunda-feira, 12 de junho de 2017

o pardal é um pássaro azul 02

esse romance de heloneida faz parte, junto com outros dois publicados por ela entre 70 e 80, do que ela mesma chama de trilogia da tortura. nesse daqui, o personagem de joão é preso por pichar nos muros da cidade que "o pardal é um pássaro azul". sua prima marina é apaixonada por ele, mas recolhe-se nisso, porque joão é homossexual e só a corresponde com amizade.
ela visita-o semanalmente na cadeia, e tenta ao máximo a melhor articulação para que ele saia logo da prisão.

apesar desse plot, o livro é muito permeado pelo discurso sobre o patriarcado, o universo feminino, a sociedade machista nordestina (o romance se passa no ceará, estado da autora), os preceitos cristãos e morais que envolvem o papel social da mulher, etc. na minha primeira leitura, isso ficou muito mais forte do que qualquer menção à ditadura militar, à tortura, às injustiças cometidas contra civis por militares naquela época.

uns trechos,

- dalva ou eu poderíamos nos encarregar do discurso de agradecimento, mas em nossa família mulher não falava em público: "mulher não tem querer", dizia vó menina. "nem negro, nem pobre". (p. 13) 

- quando eu quis ingressar na faculdade para fazer o curso de biblioteconomia, mamãe me suplicou, com lágrimas nos olhos: - minha filha, não vá estudar, roçando perna com homem... afaste de mim esse cálice. (p. 22)

- antes, vó menina comandara uma campanha vitoriosa contra o meretrício, ajudada por padre jacinto e pelo jornal católico a trombeta. fora ela que conseguira retirar as prostitutas dos seus sobrados com placa na porta, para atirá-las a um bairro de casinhas baixas na praia, onde viviam azucrinadas pelo vento excessivo e pelos apitos dos navios. (p. 27)

- - não tem lelê nem loló. só ouço aqui a opinião de minha neta marina, que é como eu, farinha do mesmo saco. não usa tinta na cara, não dá faniquito, nem corre atrás de homem. que é que você acha, marina?

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