segunda-feira, 12 de junho de 2017

o pardal é um pássaro azul

Até hoje não sei como o amor começou. No tempo em que eu vivia trancafiada na biblioteca municipal, roendo letra de livro, gostava de inventar teorias sobre isso. Hoje, não sei. Está tudo ligado a um sonho que me surgiu quando eu andava pelos dezoito anos. Eu estava subindo uma das dunas de Jaçanã, um daqueles morros de areia fina e frisada, onde João e eu costumávamos rolar, aos trambolhões, montados em palhas de coqueiro. No topo, sério e triste, ele parecia esperar alguém. Ao me ver, retirou a mão direita do pulso como quem retira uma luva - e me entregou aquele fragmento sangrento. Eu recuei, tremendo, querendo recusar, Uma mão era muito pouco, uma palma dessangrada, dedos magros, um despojo funéreo. Mas ele insistia, com tanta tristeza, com tanta gravidade - Você não me quer mais bem, Calunguinha? -, e eu lhe via as cartilagens descobertas do pulso mutilado. Acabei aceitando a mão. Soluçava e queria atirar-me em seus braços. Amava-o. Quando acordei o amor não passou mais, já não espero que passe.


(pág. 17)
(romance de heloneida studart)
(1975)

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