segunda-feira, 3 de julho de 2017

as meninas

- Rodei este ano. Faltas. Tranquei a matrícula. 
- Muito bem, muito bem. E o livro? Disseram-me que tem um livro quase pronto. Segundo a informação, trata-se de um romance, não?
- Rasguei tudo, entende - disse ela soprando a fumaça na minha cara. - O mar de livros inúteis já transbordou. Ora, ficção. Quem é que está se importando com isso. 

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Morre de pena de todo mundo. Vai ver, morreu também de pena de mim quando disse que rasguei tudo. Não é uma forma de esconder seu sentimento de superioridade? Ter pena dos outros não ´pe se sentir superior a esses outros? 

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Mas por que minha cabeça tem que ser minha inimiga pomba. Só penso pensamento que me faz sofrer. Por que esta droga de cabeça tem tanto ódio de mim?

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- Com você foi tudo alegre. Rico. Mas quando, pomba. Quero só o presente entrando no futuro-mais-que-perfeito, existe futuro-mais-que-perfeito? Se pudesse lavar por dentro minha cabeça. Com escova. Esfregar esfregar até sair sangue. 

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Levo para a cama minha caixa com petrechos de unhas, tenho esta caixa sempre ao alcance. Assim que intuo as conversas líquidas e incertas, vou pegando minha lixa e tesourinha para não perder tempo. Com isso, minhas unhas andam tratadíssimas. 

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- Não ficou mais quente? Reaprender a sorrir, Pedro. Reaprender a aguçar os punhais. E nitidez, nada de fumaças. Não faça o piedoso nem o sentimento porque aí você pode ferir muito mais. Afirmação. 

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Puxo o cabelo de Pedro que está saindo da depressão com uma rapidez que me assusta. 

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Abro a porta do edifício e uma rajada de chuva e vento me bate na cara, a chuva vem em rajadas. Rajada não é uma palavra boa mas de trás pra diante: adajar? Rosa levou uma adajar no peito fica menos grave. Corro até a esquina, chegamos juntos, Bugre e eu. O carro é da cor da noite. 




(trechos de "as meninas", romance de lygia fagundes telles)

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